Quarta-feira, Junho 03, 2009

As vinhas da ira


Um cidadão tem uma garrafa de vinho no porta bagagens. Prenda de amigo, com rótulo especial. Ele faz uma viagem. O que é que acontece?
a) Nada.
b) Chegando ao destino bebe a vinhaça e abençoa os amigos que têm a lembrança de oferecer boas prendas.
c) A rolha salta e o vinho entorna-se todo no porta-bagagens durante o calor do Alentejo garantindo uma viagem extraordinariamente frutada e com prolongado fim-de-boca.

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Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

Contradança

Gustave Doré, "Le chat botté"

Na festa de aniversário do Marques de Carabás, estando eu de Gato das Botas, uma dama pediu-me para lhe conceder uma dança. Só que nós, os cavaleiros, não sabemos dançar a salsa e a tentativa revelou-se um desastre. Tentei redimir-me com um poema em Miau menor (mas de mau dançarino fiz-me pior poeta...).


Contradança

Um gato é um gato
E se for das botas tanto melhor.
Mas, perdão!,
Eu disse gato, era cão!
Eu disse bota, era sapato.

E disse a princesa,
na mais doce voz miada:
“Gatinho, vamos dançar...”
Não se fez a lebre rogada,
saltou do sofá, pronta a pisar.

Tomou-se o gato por lebre?
Não sabe dançar o gato?
Infelizmente, é um facto...
Mas fez-se da dança lição:
“Um, dois, três, quato”.
Suuuspiro, tentação...
Já ferve o felino em febre!

“Não olhes para as patinhas...”
“Olho antes para ti?
É que mais nada hoje vi,
e nem por isso sei dançar...”

E que bem que dança a princesa!
(quem dança assim não é gato...)
Não me queres ensinar?
Promete-se estudo e afinco,
bem pouca destreza,
calcadela e falta de ar...

Gato derretido vale por dois
(e faz-se poeta
de uma poema que é uma dança
em Miau menor).

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Quinta-feira, Novembro 06, 2008

Michael Crichton


A dois dias de fazer a prova específica de Física (que valia uma percentagem razoável da minha nota de candidatura à Faculdade), resolvi ler um livro do Michael Crichton, para descontrair...
Ia-me saindo cara a brincadeira: assim que comecei a leitura deixei de resolver equações e tive uma nota miserável no exame...
É essa a virtude dos livros de Crichton: não nos deixam sossegados até os acabarmos.
E não é por acaso que quase todos os seus livros foram adaptados ao cinema, desde o Parque Jurássico, Revelação, Twister, Congo, Esfera... Crichton era médico e foi também o criador e produtor da série "Serviço de Urgência". Provavelmente seria essa formação que lhe permitia escrever uma ficção que era científica mas que, tendo lugar no presente, se engole sem esforço. A tese do Parque Jurássico é disso um bom exemplo.
Michael Crichton morreu anteontem.

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Sábado, Novembro 01, 2008



Saiu hoje o n.69 da revista "Os meus livros".
O motivo deste anúncio deve-se à simpática referência que a escritora Deana Barroqueiro me faz.
Trata-se da rubrica "aposta em...", em que autores consagrados são convidados a indicar autores desconhecidos que pensem ter valor.
Quando a Deana me perguntou se eu aceitava que se referisse a mim, respondi-lhe que achava que é nestas alturas que se diz: "É uma honra!".
O texto é muito simpático e, uma vez que é difícil de ler a partir das imagens digitalizadas, deixo a transcrição:

"Pedro e Paulo, dois potenciais vencedores

Pedro Ribeiro e Paulo Leal não se conhecem, estão separados por uma década de vida, mas unidos por idêntica formação científica (Física) e o mesmo gosto pela escrita. Desde a adolescência que ambos “escrevem para a gaveta”, sem perderem a esperança de verem um dia os seus textos publicados. Ambos têm nomes de apóstolos e escrevem contos, parecendo cessar aqui as semelhanças... ou talvez não.
As histórias de Pedro Ribeiro desenrolam-se nesse estranho território entre as fronteiras da objectividade, da realidade, por um lado, e do fantástico, poético ou metafórico, por outro, surpreendendo muitas vezes o leitor, no último parágrafo do conto, com uma revelação tão inesperada como o flash de uma câmara. Mas por trás do maravilhoso, mesmo nas histórias para crianças, pulsa a voz crítica e denunciadora do escritor que observa o mundo em que vive, com um olhar atento e desejoso de mudança:
Está mais do que provado que todos os reis são vaidosos e que querem ficar na História. Até há quem pense que a História foi uma invenção dos reis para que se escrevessem livros sobre eles... Se eu fosse rei, ia estar preocupado com o que é que se iria aprender sobre mim na escola e faria um esforço para ser um rei simpático, mas muitas vezes os reis a sério acham que é mais fácil que se fale deles se forem maus ou se fizerem coisas esquisitas.
(Maconfúcio – um conto infantil)


Os contos de Paulo Leal são minimalistas e mais mordazmente satíricos, por vezes até à crueldade – enquanto a ironia de Pedro Ribeiro é mais subtil e magoada –, quando descreve situações do sagrado ou do profano, despindo-as das roupagens da hipocrisia para as mostrar na nudez da sua mediocridade ou recriando obsessivamente, através de repetições, comparações e jogos de palavras, o absurdo de um mundo às avessas ou de uma sociedade de fabulário (como no seu Gato das Botas), a remeter-nos para o universo orwelliano do “Animal Farm”, onde facilmente nos vemos reflectidos e deformados nesse espelho de circo de horrores. Paulo Leal mostra uma visão desencantada, quase cínica, de distanciamento do mundo em que vive ou onde vegetam as suas personagens:

O suicida

Olhou para baixo e pensou que as pessoas ao longe parecem formigas, depois amargamente que de perto também.
Recordou o que levou a parar na balaustrada da varanda, tentando enganar-se disse para si mesmo que a vida talvez melhorasse reconhecendo de antemão que tal era impossível. Talvez fosse o desejo de viver, mas para quê e como, não sabia a resposta.
Pensou que vivia num paradoxo, por um lado não tinha motivos para viver, por outro o suicídio parecia-lhe particularmente absurdo.
Lembrou-se de todas as pessoas que conhecia e no resto da gente que também conhecia. Chegou à conclusão que existiam muitas pessoas que precisavam dele, e aparentemente até gostavam da companhia dele, apesar de não o saber com certeza.
Pessoas essas que ocasionalmente em momentos de enlevo quase romântico tinha talvez embaraçado chamando-as de amigos ou irmãos, dependendo do grau de cegueira.
Não saltou e assim morreu mais um pouco.


Pedro Ribeiro transporta também para as suas histórias a realidade que o rodeia, descrevendo a fortes traços negros, como num desenho a carvão, os espaços e as personagens, sempre atento aos pormenores que inesperadamente se esbatem e transformam em símbolos de uma outra realidade que não é palpável mas lhe serve de veículo para, tal como Paulo Leal, nos transmitir desencanto e pessimismo, evidentes no tema dos suicidas, comum a ambos:

Os Suicidas

...Num país que existe em diferentes andamentos, quem nasce naquele interior sabe que, provavelmente, ali vai morrer e facilmente a sua existência se torna desinteressante por não ter finalidade. Acaba-se por sobreviver sem outra razão que não seja o impulso vital, sem chama, só dormência... E o álcool alimenta, banda-sonora para esta morte interior.
Por isso, não se estranha que as tascas e os cafés — expressões mais actuais em que muitas evoluíram — sejam tão frequentes nas vilas alentejanas.
Procurei a que me pareceu mais autêntica e entrei. Não decepcionou...
Apesar do crepúsculo, o interior não estava iluminado. O cheiro acre do vinagre em que se haviam decomposto todas as bebidas derramadas por mãos bêbedas, juntamente com o cheiro do fumo condensado pelos cantos, invadiu-me as narinas e foi precisa contenção para esconder a repulsa instintiva. No chão, as caricas e beatas eram os despojos materiais do álcool e do fumo.


O talento, quer de Pedro Ribeiro, quer de Paulo Leal, servido por uma imaginação vibrante e um bom domínio da língua e das técnicas narrativas, dificilmente pode ser defendido com justiça em tão poucas palavras ou pelos curtos excertos das suas obras. Todavia eu não hesitaria em apostar na sua escrita vigorosa e criativa, embora por vezes algo hesitante no primeiro ou repetitiva no segundo, porque este caminho faz-se caminhando e a vida de um escritor é uma contínua busca, feita de aprendizagem e reinvenção.

Deana Barroqueiro"






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Poema Tuga


Domingo, de fato de treino,
no Pizza Hut bebo uma cola.
Mas passa-me uma coisa pela tola,
e porque este é um poema tuga
deixo a pizza e como uma hambuga!

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Quarta-feira, Outubro 29, 2008

O Trelogue está de volta!

O aguardado regresso do Trelogue está agendado para breve!
Vão passando por cá...

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Domingo, Fevereiro 03, 2008

Momentos #3 - consertos&concertos

No cenário improvável de uma oficina de automóvel, escutou o som de um piano.
E o chão negro de óleo e o cheiro da borracha e as cores das chapas batidas — que não lhe eram desagradáveis — ficaram estranhos com aquela melodia suave que não se percebia de onde vinha.
Procurou o piano na janela alta de uma parede e o som vinha de lá.
Espreitou para ver duas meninas a fazerem ballet.
Sorriu: também ele estava nas pontas dos pés...

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Domingo, Janeiro 20, 2008

Nem todos os ateus são más pessoas...

A argumentação não é forte mas como se baseia na Bíblia sempre dá algum gozo.
E é um bom pretexto para homenagear alguns dos nomes que admiro:

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Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

África

O Trelogue vai passar o ano a África (trata-se de Marrocos mas nem por isso deixa de ser África!).
Voltamos com actualizações nos primeiros dias de 2008. Até já...

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Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

A história da minha vida


Episódios da vida de um professor: As reuniões de Natal

I
Sete e qualquer coisa.
Acordar uns minutos antes do despertador tocar traz sempre uma sensação estranha: uma espécie de maravilhamento pelo corpo ter superado a máquina, antecipando-se. É como se durante o sono uma parte inconsciente do cérebro tivesse estado a contar os sons da engrenagem do relógio...
Ao mesmo tempo sinto sempre uma frustração imensa pelos minutos de sono roubados.

II
Arrancar o corpo à cama é tarefa de gigante.
O monstro só começa mesmo a sair depois de ser lavado com água. E enquanto ele me abandona costumo ficar imóvel, com a água a escorrer por mim como por uma estátua em noite de temporal.
Depois atiro-lhe com uma valente caneca de café e o bicho estrebucha.
Mais uns minutos e já me mexo no mundo das sombras.

III
O dia de hoje prometia três reuniões de avaliação. Três reuniões três. A primeira para as oito e meia.
Odeio reuniões quase tanto quanto odeio o natal.
A maior parte são desnecessárias, inúteis e contraproducentes. Defendo uma Escola sem reuniões. Se eu for Ministro acabo com a Escola Com Reuniões!
Mas quando cheguei à sala de professores não encontrei ninguém. Eram oito e vinte e cinco e a malta costuma ser pontual – qualquer coisa estava mal.
Mentalmente começo a pensar no que é que falhou. O placard infinito das reuniões tinha a resposta: a reunião estava marcada para as dez e meia!!
É nestas alturas que eu invento palavras novas: os palavrões existentes em mandarim não são suficientes para exprimir a minha revolta.
Nos meus tempos de estudante cheguei a ir para a escola em feriado... Esta é a História da minha vida.

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Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Mandrágora


«Nem papoila, nem mandrágora,
Nem todos os xaropes
soporíferos do mundo
Poderão devolver-te o doce sono,
De que gozavas ontem.»
“Otelo”, Shakespeare

I

O caminho continuava pelo cume da colina apartando em dois o campo de trigo e, ao percorrê-lo, com a brisa a ondular as espigas, quem tivesse visto o Mar imaginaria estar a atravessar águas divididas pela mão de um profeta.
Uma única árvore de porte – um carvalho antigo – interrompia, dissonante, os tons quentes da paisagem. O cavalo do Agrimensor movia-se lento e os balanços da montada eram ruído que não deixava perceber as lentas mudanças do cenário, mas, devagar, a árvore foi-se impondo, estranha e soberana no campo de cereais. Só então, o viajante descobriu que pendia, do tronco mais grosso, o corpo de um enforcado que rodava, lentamente, empurrado pelo vento, torcendo e destorcendo a corda de cânhamo.

Sem desviar a vista ou atrasar o passo do cavalo, o Agrimensor olhou para o cadáver pendurado. Sem surpresa, reparou que tinha sido despojado de todos os pertences e que mesmo os panos que lhe cobriam as carnes não eram as suas vestes próprias, mas antes trapos postos para disfarçar a nudez infligida, depois de lhe terem sido retirados os trajes mais valiosos. Os pés nus, muito brancos, ainda mostravam as marcas das botas. O carrasco pagava-se da sua ignóbil profissão...
Apesar da morte estampada no rosto descolorido e inchado, a distância dos corvos mostrava que o cadáver era recente e que a temperatura do sangue ainda não autorizava necrófagos.
O Agrimensor não conseguia desviar os olhos. Não o impressionava a morte, nem sequer a violência desta em particular – que se conhecia no ângulo não natural que o pescoço fazia no seu colarinho de corda. Também não o comovia a juventude do condenado. O que impressionava o Agrimensor era o seu ar inocente, um rosto de uma pureza não deixava adivinhar que terrível crime cometera.

Completamente absorto neste exame, não se apercebeu do vulto entrapado que estava encolhido nas raízes da árvore e foi com surpresa que viu uma velha andrajosa desenrolar-se e, ligeira, avançar para o cavalo. Mau grado seu, estremeceu.
A velhice e a miséria tinham-na desfeado até ao limite do possível: o corpo torcia-se numa corcunda e nas pernas arqueadas, e as peles da cara, feitas em rugas, tinham-lhe roubado qualquer traço de personalidade.
A Velha falou, mas a sua linguagem cuspida era ininteligível e o Agrimensor, mais para abreviar o encontro do que por qualquer sentimento de piedade, abriu uma bolsa e atirou-lhe três moedas de cobre que a mulher apanhou avidamente. Mas antes que ele tivesse tido tempo de espevitar a montada, a mulher aproximou-se, estendendo-lhe um objecto e declamando algo que lhe soou como uma ladainha mística.
O Agrimensor começou por ignorá-la, mas, supersticioso, acabou por receber a oferta com receio de atrair má sorte, recusando um amuleto de uma bruxa. Depois, esporeou o cavalo e afastou-se o mais rápido que pôde daquele cenário macabro e daquele encontro indesejado.


II

Voltou-se para trás e já não viu a árvore. Só então olhou para a oferta.
Tratava-se de uma pequena caixa de madeira que, apesar do talhe simples, valia mais do que as três moedas de cobre. Dentro estava, embrulhada num pano velho, uma pequena raiz que, com certeza, atraía a boa sorte ou dava saúde.
O Agrimensor ainda hesitou sobre o que fazer com a caixa e o conteúdo, mas acabou por guardá-la num bolso junto ao peito. Depois levantou os olhos – ao longe avistava-se um casario onde, com sorte, haveria sítio para pernoitar.

A estalagem, inevitavelmente, destacava-se no povoado miserável: era a única construção de dois pisos e das poucas em que ainda se conseguia ver alguma cal presa às paredes. Não obstante, era um espaço bastante modesto e percebia-se que não devia ter grande movimento.
O Agrimensor desmontou e passava as rédeas numa argola cravada na pedra quando um miúdo de poucas falas veio buscar-lhe a montada. Não tinha, com certeza, mais de dez anos e acusava raquitismo de má alimentação, mas mesmo assim conseguiu, em bicos de pés, tirar os arreios e a sela. O viajante ficou a vê-lo, desajeitado, levar o cavalo e só quando os dois desapareceram na escuridão da estrebaria é que se dirigiu para a entrada da estalagem. Como ninguém o viesse receber, levantou o trinco e empurrou a porta, tendo de usar os ombros pois, perra, resistiu ao primeiro esforço da mão.
Espantou-se ao encontrar uma sala cheia de gente que ceava. Não eram estrangeiros e, entre homens, mulheres e crianças, parecia que toda a aldeia estava lá, comendo e bebendo, mais ou menos em silêncio e, definitivamente, sem os sons festivos que, normalmente, acompanham os que comem em grupo. Seria uma celebração, mas muito pouco animada.
Ninguém pareceu prestar-lhe atenção e mesmo o estalajadeiro olhou-o desinteressado. Descontente com a hospitalidade grosseira, procurou por si mesmo uma mesa e, contrariado, acabou por se sentar longe do fogo que ardia pujante.
Ao atravessar a sala não conseguiu deixar de estremecer de nojo e repugnância. O ar fedia ao cheiro dos que nunca se lavam e jamais vira gente tão feia nem tão suja. Não encontrou ninguém que não tivesse uma deficiência de alguma natureza e uma expressão de estupidez e maldade que denunciava a pouca mistura de sangue. Era como se só se fizessem nascer uns dos outros e tivessem degenerando até uma condição em que essa realidade passou a ser condenação, já não conseguindo procriar senão com outros os enjeitados, destilando assim o que de pior tinham.
Surpreendentemente, estavam bem vestidos embora com roupas que pareciam não lhes pertencer, como os pescadores que se vestem dos despojos do naufrágio de um navio. As roupas estavam maltratadas pelo uso diário e percebia-se bem porquê: comiam com as mãos e limpavam os dedos e a boca às mangas e às fraldas. Assoavam-se e escarravam para o chão. Também não se percebia como aqueles miseráveis, que mal teriam dinheiro para um copo de vinho, comiam tais pratos. Aquela assembleia estava errada como a música de um instrumento desafinado.

Depois de uma espera de alguns minutos, enquanto se fizeram estas observações, o estalajadeiro aproximou-se com um jarro de vinho e um copo de barro que pousou na mesa. O Agrimensor explicou ao que vinha:
– Queria um quarto para a noite e uma refeição. O meu cavalo é de boa forragem...
O homem parecia distraído e não respondeu logo, mas acabou por dizer desinteressado:
– O quarto arranja-se, mas já não há comida.
– Não há comida? – espantou-se o recém-chegado – Como assim? Toda a gente come...
– Já se acabou.
E sem esperar por réplica virou-lhe as costas.
O Agrimensor, incrédulo com tamanha desfaçatez, assistia ao banquete, que continuava a ser alimentado por travessas de bons pratos. Uma criada acabou por trazer-lhe um pão e um prato de nabos cozidos que ele empurrou para o lado com desprezo. Esvaziou o copo de um golo e preparava-se para se levantar sem cear quando a porta da estalagem se abriu e entrou a velha que lhe tinha saltado ao caminho, junto à árvore.
À entrada da Velha, todos interromperam de imediato a refeição ficando como que suspensos de um qualquer sinal seu.
Então, no silêncio, a mulher percorreu a sala com os olhos e deteve-se no Agrimensor. Fez um sinal com a cabeça na sua direcção e, em reposta, os bárbaros comensais, aplaudindo ruidosamente, levantaram-se com sons pouco menos que selvagens, cercando o espantado viajante que assistiu quieto mas assustado àquela aproximação.
O Estalajadeiro chegou-se então à sua frente, fez um sinal a pedir silêncio que foi prontamente respeitado, e começou a falar:
– Temos razões para acreditar que praticais as artes negras proibidas no nosso reino.
– Isso é um disparate! Sou agrimensor d’El Rei e temo a Deus como bom cristão que sou...
Mas não acabou a frase, três homens agarraram-no para que o Estalajadeiro o revistasse. O Agrimensor debateu-se em vão e os homens embrutecidos esmurraram-no na cabeça. Atordoado, não ofereceu mais resistência.
Não foi preciso procurar muito: o Estalajadeiro, com ar de satisfação mal contida, facilmente encontrou a caixa e levantou-a com júbilo, mostrando-a à sala. Houve um coro de exclamações que pretendeu simular surpresa e indignação.
– Temos aqui qualquer coisa! – gritou, olhando à volta – Que guardais nesta caixa de tão maldito aspecto?
O Agrimensor, atónito, não respondeu e o Estalajadeiro abriu-a com um gesto exagerado de repugnância.
– Uma mandrágora!
A populaça rejubilava ululante.
– A raiz mágica que nasce da semente maldita derramada por um enforcado... Que bruxedos querias fazer com esta planta do demo?
– Foi ela... – tentou o Agrimensor explicar, usando a cabeça por ter as mãos presas, para apontar a Velha que assistia imóvel e sem expressão.
Furioso, o estalajadeiro esmurrou-o nos queixos e gritou-lhe:
– Mentes, filho do demónio! Julgas que não sabemos como fazes? Atas uma corda ao rabo de um cão preto para arrancar a raiz à terra pois os gritos que solta enlouquecem os homens... Na lei do reino pagarás com a vida: o porte de ervas proibidas é castigado com a forca! Amanhã mesmo serás pendurado... Ponham-no a ferros e tirem-lhe as roupas, que não é mais dono delas. O dinheiro que tiver há-de servir para dar de comer aos pobres desta terra...
Mãos ávidas despiram-no brutalmente deixando-o nu.


III

A mula subia a encosta e, adormecido pelos balanços preguiçosos da montada, o Médico cabeceava de olhos fechados. Fosse por cheirar a morte, pelo desejo de descanso após a longa subida, ou apenas por querer aproveitar um pouco da sombra da frondosa árvore, a mula, chegada ao cimo, estacou o passo e sacudiu-se acordando o estremunhado homem que, assim que abriu os olhos, encontrou a cinco passos de si o corpo nu de um enforcado. Gritou de genuíno horror.
Com o coração aos saltos mas mais refeito do susto, olhou com atenção o cadáver: embora a pele fosse escurecida pelo Sol não deixava de revelar os traços finos de um burguês. Estranho caso este: grande desonra fizera para que não visse a cabeça cortada, como se faz, por norma, aos da sua condição.
O cadáver era recente e do pénis escorria uma gota de sémen – a húmida luxúria dos anjos.
Perdido nestes pensamentos, não reparou num monte de trapos, junto às raízes do carvalho, que revelou ser uma velha mulher quando se levantou e avançou lesta na sua direcção.
Mal refeito do primeiro susto, soltou novo grito de surpresa.
A mulher falando uma linguagem incompreensível estendeu-lhe uma caixa de madeira.
Envergonhado pela sua falta de coragem, o Médico atirou para o chão umas moedas pequenas e quando esticou a mão para receber a caixa reparou, com espanto, que nos dedos da Velha reluzia um anel de ouro com o selo da guilda dos agrimensores do reino.

FIM


Pedro Medina Ribeiro
Lagos, Novembro de 2007

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Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

O monstro andava de bicicleta,
doido, pela calçada,
de luz apagada,
e ria-se, perdido,
dos sustos que pregava.

Feio, imundo, mau,
de longas garras,
pedalava, pedalava, pedalava!

A pedaleira gemia e chiava.
Tudo tremia.
Só um puto aplaudia
(o resto chorava...)

E o monstro,
à velocidade de delírio,
incandescente e estúpido,
gritava, empurrava, atropelava.

Na vertigem da descida,
com a cabeça estragada,
tonta barata, besta mestra,
acelerava, puxava, rebentava.

Mas a maior das paredes ali estava!
Sólida, imensa, irresistível...
E com um pequeno desvio do guiador,
foi com profundo prazer,
que o monstro se esmagou
(e morreu o estupor).

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Domingo, Setembro 16, 2007

Cicada

Ao ler um livro, encostado a um árvore, reparei numa carapaça estranha.
Durante a hora que se seguiu pude assistir e registar o que, mais tarde, vim a saber ser uma cicada a deixar o seu exoesqueleto. Ficam aqui as fotografias:








Foi neste poster do Museu de História Natural que fiquei a saber que se tratava de uma cicada:
Este insecto tem muitos fãs (incluindo alguns que a comem!) e é fácil encontrar vários sites que lhe são dedicados, incluindo este.

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Sábado, Setembro 15, 2007

Chafariz d'El Rey, Países Baixos, (ca.1570-80)

É mais ou menos consensual que Portugal não se sabe promover. Não é fácil comprar português fora de Portugal (e mesmo em Portugal é difícil...).
Numa livraria norte americana procuramos autores portugueses e encontramos os esperados: Saramago, Damásio, João Magueijo.
Pegamos em “Seing”, a tradução de “Ensaio sobre a Lucidez”, e lemos a contra-capa: “José Saramago is one of the most acclaimed writers in the world today. (...) He lives in Spain.”
O mesmo dos outros: diz-se onde trabalham, porque são importantes mas nem uma referência à nacionalidade.

Desabituados a ter Portugal no mapa é com surpresa que se encontram em DC vários cartazes turísticos e anúncios a uma exposição: Encompassing the world: Portugal and the World in the 16th and 17th centuries”.
A exposição é formidável e quem a visitar pode ver “a cores” documentos que nos são bem conhecida dos manuais de História: os biombos nam-ban, diversos planisférios e globos, a armada do Gama, o Gama, o Albuquerque... (também está o interessante quadro da colecção Berardo que reproduzimos em cima: uma representação flamenga de Lisboa do final do séc.XVI).
Na loja do museus uma selecção de produtos portugueses, apesar de incompleta, dá um ar da sua graça.

Outros objectos em exposição aqui.

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Sexta-feira, Setembro 14, 2007

Showbis III

"Mausoleum of Maussollos", a partir de um gravura de Marten Heemskerk

A Maçonaria tem uma longa tradição histórica nos EUA. Pelo menos 13 dos 43 presidentes foram maçons (a começar pelo primeiro, George Washington) e a influência institucional da fraternidade é óbvia (embora negada) nas próprias notas de dólar que ostentam vários símbolos maçónicos - uns mais óbvios, outros mais especulativos.
A propensão americana para o showbis é a minha ingénua explicação para que a Maçonaria norte americana esteja longe de ter o carácter de secretismo que se lhe conhece na Europa, nomeadamente em Portugal. Nos EUA as lojas maçónicas estão bem identificadas e, pelo menos algumas, recebem visitas.
Na 16th street que tenho atravessado todos os dias há dois templos do Rito Escocês e um deles, um belíssimo edifício nas imediações na National Geographic, convida-nos a visitá-los. Não podia perder a oportunidade...

O impressionante edifício é todo construído em pedra, sem qualquer suporte de metal, num desenho inspirado no Mausoléu de Halicarnasso.
Subimos os degraus que se sucedem em conjuntos místicos de três, cinco, sete e nove e submetemo-nos a duas imponentes esfinges silenciosas. Atravessamos as portas de bronze para um majestoso hall decorado com motivos egípcios e uma bela mesa de pedra ao centro, suportada por águias bicéfalas, reprodução quase exacta de um achado das ruínas de Pompeia.
Recebem-nos cordialmente, querem saber o motivo da nossa visita e de quanto tempo dispomos. Convidam-nos a começar a visita com um breve filme em que o próprio Sovereign Grand Commander nos dá informações genéricas sobre a Maçonaria e sobre o edifício.
Em seguida o guia mostra-nos o exterior do templo: voltamos a sair para notar que uma das esfinges tem os olhos semi-cerrados e a outra os olhos abertos, representando, respectivamente, o conhecimento e o poder. Ficamos a saber que as colunas que suportam o edifício são em número de 33, tendo, cada uma, uma altura de 33 pés. Entre outros significados místicos, 33 é o número de graus do Rito Escocês e será a conta de muitos outros elementos ao longo da visita. Aparecerá também, a quem o procurar, noutros sítios da cidade: é, por exemplo, o número de degraus que leva à Rotunda do Capitólio (cuja primeira pedra foi colocada por George Washington num ritual maçónico...). Aqui não há coincidências...
Depois de mais algumas salas, subimos a grande escadaria, passámos pelo cadeirão de pedra do guardião e o guia anuncia-nos que era chegada a altura de ver “aquilo que tem estado a perder todos estes anos” e introduz-nos na Sala do Templo.
Não decepciona; nenhum filme que tenhamos visto preencheu o nosso imaginário de forma a preparar-nos para aquela Sala do Templo.
Imediatamente, nosso olhar é atraído para o nobre “trono” do Grande Comandante. À semelhança do resto do mobília, a Estação do Grande Comandante, é construída na madeira exótica das nogueiras russas e repousa sob um baldaquino de veludo italiano.
No centro da sala, um altar de belíssimo mármore negro e ouro, com inscrições em hebreu, recebe os livros sagrados de várias religiões. Do lado oposto está um órgão.
À toda a volta da sala, três dezenas de assentos na mesma madeira exótica, que segundo nos dizem, não existe hoje em quantidade suficiente para construir igual mobília. Frases em latim são máximas em frisos do tecto e vitrais vão aliviando a cor nas alturas, simbolizando o processo de auto-conhecimento, conducente à luz.
Reposteiros púrpura e colunas de pedra verde com capiteis de bronze... Mosaicos...
De facto, não conseguíamos imaginar melhor sítio para jogar esse Sudoku místico para eruditos!

Não deixem de seguir a visita aqui.
As fotos são daqui. Sobre a nota de dollar.





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Terça-feira, Setembro 04, 2007

Showbis II

Um aspecto positivo desta costela (coluna vertebral?) de entertainment é que há um esforço para tornar as coisas interessantes, nomeadamente a Cultura.

Sexta-feira passada, assisti num museu a uma palestra sobre molduras renascentistas. Não é, propriamente, um tema vibrante, mas dois oradores e meia dúzia de paus carunchosos conseguem que a audiência questione a sua vocação profissional e considere seguir uma dourada carreira de emolduradora renascentista.
Outro exemplo são os livros científicos norte-americanos versus europeus: estes últimos, são tipicamente, muito mais difíceis de tragar... Tome-se um livro de Matemática do Velho-Mundo. O teorema estará enunciado de forma correctíssima e a demonstração seguir-se-á irrepreensível. Seguimos a sua leitura atentamente, mas será que percebemos realmente a abrangência do enunciado matemático? A sensação que tenho é a de que o livro americano tem essa preocupação mais em mente e que lhe dá prioridade.
Finalmente termino a minha tese com uma sugestão: experimentem utilizar a wikipedia para explorar um conceito, por exemplo, “niilismo”. Espreitem a entrada portuguesa e, a seguir, a entrada em inglês. Em qual ficaram mais esclarecidos? Obviamente que não sei se esta entrada foi feita por um americano, mas estaria disposto a apostar que sim.

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Showbis I


Uma característica bem americana é a incrível capacidade de fazer de tudo um espectáculo. Há uma postura cénica em todos os eventos!
Eventos? Que dizemos? É muito mais do que o cinema ou do que o desporto de acção... Em todas as pessoas, em todas as interacções, é construído um constante apelo às emoções. Os décors são neónicos, os adereços fardas reluzentes, a bandeira estrelada. Vibrante!
Um carro da polícia manda parar um automóvel em infracção? Saem dois agentes de mão na pistola. Os carros de bombeiros e as ambulâncias são esplendorosos, metálicos, flamejantes! Dá vontade de ser levado lá dentro para um sítio qualquer...
O mundo é um palco e as pessoas não são actores: são estrelas de Holywood!

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Brinquedos

Diz-se que a diferença entre um rapaz e um homem é o preço dos seus brinquedos.
É capaz de haver alguma verdade nisso... eu pessoalmente acabei de descobrir dois ou três brinquedos que quero ter quando for grande.
Um é o iphone, a nova invenção da Apple e que acho que fica bem descrito da seguinte maneira: quando fechamos os olhos e pensamos no que será o telemóvel do futuro provavelmente não teremos conseguido imaginar o iphone...
O segundo que vou ter quando crescer é algo de que já oiço falar há muito tempo mas que só agora vi à venda: o ebook reader da Sony (por acaso os $200 ou $300 até nem são proibitivos mas é duvidoso que ainda não seja compra prematura...)
Ah! E quando eu for já bem crescido (isto é, quando tiver muito $$$) vou andar de segway! Vêem-se com alguma frequência a circular por Washington (alugados?), inclusivamente montados pela polícia!
Nota final: já que falamos de desenvolvimentos tecnológicos, o meu computador está neste momento a detectar nove redes wireless...

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Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Bichos


Henry Rousseau

Ainda no capítulo das diferenças luso-americanas, talvez a que me causa mais espanto é a facilidade com que a malta aqui mete conversa.
Nós, os portugueses, somos Bichos-do-Mato. Tenho a certeza de que se dois portugueses com a camisola do Figo se cruzarem no Pólo Norte viram a cabeça para o lado para não terem de dar os bons dias.
Pois por cá exemplos do oposto multiplicam-se.
Nas ruas das zonas residenciais as pessoas cumprimentam-se quase como na terra da minha avó e, em plena cidade, já me aconteceu várias vezes estar com o mapa na mão e oferecerem-me ajuda o que, apesar de não ser necessário, não deixa de ser uma oferta muito simpática
Nos restaurantes o empregado começa sempre por perguntar como estamos num tom de intimidade convincente que disfarça bem o facto de estar só a cumprir o seu dever (e a simpática condutora do autocarro que tenho apanhado nos últimos dias cumprimenta, um a um, os passageiros à entrada e estes, por sua vez, quando saem, agradecem a boa viagem que fizeram e desejam-lhe um resto de bom dia).
É frequente as pessoas meterem-se comigo por causa da t-shirt que trago vestida ou perguntarem-me de que país sou e outro dia a Sarah parou uma senhora na rua para lhe perguntar onde é que ela tinha cortado o cabelo. Em Portugal essa pergunta seria, no mínimo, encarada com desconfiança mas aqui foi natural, recebeu uma resposta e houve um cabeleireiro que ganhou um cliente.
Mas é preciso dizer também que esta cordialidade está longe de ser universal e há muito trombudo por cá!

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Quinta-feira, Agosto 30, 2007

Na mouche

Um hábito de que gosto particularmente nos EUA é a vida de café.
Os cafés, tipicamente, são grandes e têm uma grande variedade de produtos de boa qualidade.

Nota: variedade na oferta é, de um modo geral, a palavra de ordem nas lojas aqui; uma experiência extraordinária para um português nos EUA é tentar comprar pão-de-forma ou cerais no supermercado. A descrever um dia destes...

Se em Brooklyn os cafés de bairro eram simpaticamente mobilados com cadeiras e sofás em segunda mão, pintados numa variada palete de tinta grossa, em Washington temos de nos render aos franchising (tipicamente os Starbucks ou, para fugir à cadeia multinacional, a alternativa Caribou que vai dar exactamente ao mesmo...).
De qualquer maneira, e ao contrário de Portugal, sentimo-nos à vontade para ficarmos lá sentados o tempo que quisermos – seja na net ou a estudar, ler, escrever, ouvir música ou simplesmente a jogar scrabble ou sudoku.
O meu amigo Joca Faisão, sempre pronto a gozar-me os tiques, enviou-me a deliciosa cena que reproduzimos a seguir. Acertou na mouche...


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Terça-feira, Agosto 28, 2007

Washignton DC, 2007


Esta é a minha segunda visita à capital dos EUA, mas a primeira estadia foi tão breve que não serviu para perceber o sítio. Agora sim: cá por três semanas, já senti o pulso à cidade e tenho opinião formada. Infelizmente nem eu nem a Sarah estamos contentes pela troca de Nova Iorque por Washington DC...

O carácter capitolino de Washington DC está demasiado marcado para tornar esta cidade um sítio simpático. A maior parte dos edifícios do centro são edifícios federais ou escritórios (com nomes tão esclarecedores como Department of Commerce, General Accounting Office, Internal Revenue Service, etc.) de forma que, mal comparado, a capital dos EUA é uma espécie de Terreiro do Paço só que mais feia e de tal maneira policiada e vigiada que, até que a gente se habitue, é extremamente claustrofóbica.
Washington não tem vida de cidade. É uma gigante repartição de finanças! Não há lojas e ninguém se fixa aqui para viver: todos estão cá apenas um par de anos (com a infeliz excepção do Bush que ficou oito anos...). Não há casais, nem velhos, nem crianças, nem cães (e os turistas são todos americanos).
Claro que estou a exagerar e à medida que nos afastamos do centro as coisas mudam (e com algum jeito até posso vir a fazer as pazes com o sítio), mas a cidade que a maioria das pessoas visita é mais ou menos como descrevo e, para já, estamos de relações cortadas.
Outra coisa desagradável desta zona da costa leste é que, pelo menos no Verão, as elevadas temperaturas são acompanhadas por uma humidade pegajosa, especialmente incómoda para mim que sou o ser humano que mais sua no mundo!

Mas nem tudo é mau na capital dos EUA e uma das coisas boas é que tem imensos museus, de qualidade extraordinária, e todos de GRAÇA! Portanto, meus amigos, é sair de um e entrar noutro - e assim tenho passado os dias com os grandes mestres da pintura, animais empalhados, foguetões, nazis, dinossauros, artes contemporâneas, etc. e sempre no ar condicionado!
Por falar nisso, já estou há demasiado tempo de volta do computador e hoje o dia até nem parece estar tão pegajoso como de costume...

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Segunda-feira, Agosto 27, 2007

E cá temos de novo o Trelogue a funcionar!
Parte do longo silêncio não foi intencional: não estava a conseguir usar o portátil para mexer no blogue (mas já descobri que era por ter a data errada...). Resolvidos esses problemas técnicos cá estamos, de novo, a dar notícias!
Desde a última vez que falámos já muita coisa aconteceu: depois de termos estado em Berlin a ajudar a Sarah a montar a exposição (que, diga-se de passagem, foi um sucesso e da qual deixarei uma "reportagem" fotográfica em breve...) a Sarah arranjou um emprego na National Geographic e mudou-se para Washington DC, de onde estamos a escrever agora.
Em breve voltarei para contar as minhas impressões sobre a capital dos EUA, mas deixemos este post assim: uma saudadção aos sucessos de quem fez as suas próprias oportunidades e sempre lutou por aquilo que queria. Parabéns!

Nota: dois dias depois deste post, e ao fim de apenas três semanas de trabalho, a Sarah viu o seu contrato estendido por um ano e uma nova tarefa de responsabilidade: escolher as fotografias da National Geographic a utilizar pelo Apple na promoção da sua iTV. Não é preciso dizer mais nada...

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Sexta-feira, Julho 13, 2007

Citações #6

"Ulysses deriding Polyphemus", William Turner, 1829

Ouve-se dizer que nunca há só um teimoso: há sempre, pelo menos, dois...
Ensinamento sábio que convém ter na ponta da língua para devolver a quem, em discussão, nos acusar de ter a falta de gosto da teimosia.
Há, no entanto, situações em que um só teimoso é suficiente para alimentar uma teima...

Em 1992, os GNR cantaram em todas rádios:
"E com desasseis
Nunca se teve tempo de ler o Senhor dos Anéis
Só de uma vez".
E eu, na altura com quinze anos, fiquei irritado (ofendido?) com aquela afirmação arrogante e tratei de a desmentir lendo o épico de imediato (diga-se, de passagem, sem encontrar justificação para a letra da música para além da necessidade da rima).

Comecei a ouvir falar do "Ulisses", de James Joyce, no mesmo tom fatalista. Meti, então, na cabeça que haveria de ler o polémico livro antes de completar o meu trigésimo aniversário.
Como o "Ulisses" descreve o dia 16 de Junho de 1904 na vida de um senhor chamado Leopold Bloom, para pôr algum efeito no meu acto, comecei a lê-lo no dia 16 de Junho passado tendo o 8 de Agosto do meu trintão aniversário como data limite.

E, de facto, o livro é mesmo tormentoso!
Imagine-se um capítulo de dezenas de páginas em que todos os parágrafos têm tanto nexo quanto este que agora transcrevo:

"Inelutável modalidade do visível: pelo menos, se não mais, pensado através dos meus olhos. Estou aqui para ler as assinaturas de todas as coisas, ovas e sargaços, a maré que se aproxima, essa bota corroída. Verderanho, azul de prata, ferrugem: sinais coloridos. Limites do diáfano. Mas acrescenta: nos corpos. Então é porque tinha consciência deles, corpos, antes deles, coloridos. Como? Batendo com a cachimónia contra eles, é claro.", (p.65, livros do Brasil)

E acreditem que há bem pior!... Mas, agora, às 422 páginas, a meio das 844 que tem o camalhamaço na minha edição, já posso falar em boa esperança!!
Por vezes, um bom teimoso é perfeitamente suficiente para alimentar uma discussão...


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Segunda-feira, Julho 02, 2007

Nunca digas nunca...


Sempre jurei que jamais usaria uma gravata!
As razões começaram por ser revolucionárias mas acabaram por se tornar pura teima...
Com a aproximação do grande evento começou a tornar-se óbvio que iria ter de quebrar a jura.
A Sarah pôs-me à vontade para continuar fiel aos meus pricípios, mas pareceu-me que seria mais ridículo ir sem gravata do que com um bacalhau ao pescoço...
Isto tudo para dizer que comprei o meu primeiro fato (e gravata...) neste fim-de-semana que passou.

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Terça-feira, Junho 26, 2007

Momentos #2

"Golden Afternoon", Balthus (1957)
Corpo deitado na toalha sobre a areia.
Tronco de lado voltado ao Sol de fim de tarde.
Luz rasa directa nos olhos fecha as pálpebras.
O sono mole fecha o resto.
O braço desliza sobre a toalha. O corpo volta-se.
Adormeceu.

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Domingo, Junho 03, 2007

O anzol

Há lagos de muitas cores. Este era verde, verde, verde.
No lago vivia o mais extraordinário peixinho que alguma vez existiu.
Parecia um peixe esquisito mas era um peixe normal e era, sem dúvida, extraordinário.
E de todos os peixes que conheci este era, definitivamente, o que mais gostava de literatura.

Conhecemo-nos num dia de Verão. Foi assim:
– És um peixe? – perguntei-lhe.
– Hoje sou. – respondeu.
Comecei a desenhar, e ele deixou-se ficar a olhar para mim. Antes que me fosse embora perguntou-me:
– Dás-me o teu desenho?
Pousei a folha na água e ele comeu-a.
– Da próxima vez trazes-me qualquer coisa diferente? – pediu-me.
– O que é que gostarias?
– Um poema, talvez.
– Não preferes comida de peixe?
– Não, um poema parece-me lindamente...

No dia seguinte, sentei-me no mesmo sítio a escrever poesia, mas o peixinho não apareceu. Quando acabei, deixei-lhe os poemas na água e só então ouvi a voz dele:
– Não és grande poeta...
– Pois não! – e desatámo-nos a rir.

O lago, às vezes, parecia muito grande, outras vezes apenas uma poça no chão, mas se eu queria ver o peixinho tinha de lhe oferecer uma coisa feita por mim e ele tinha de gostar. Se não gostava não aparecia – ou então vinha só para dizer que não gostava, que eu era mau poeta e ria muito... mas não conversava.
Quando ele gostava e falava comigo eu perguntava-lhe sempre:
– Voltas amanhã?
E ele dizia que sim mas era mentira: só voltava se gostava do desenho ou do poema. Quando eu o apanhava outra vez chamava-lhe mentiroso e ralhava com ele, mas ele não fazia caso.

Nunca sei dizer sobre o que é que conversávamos, mas eram sempre assuntos interessantes e o peixinho tinha o verbo fácil – embora às vezes fosse difícil de perceber porque não usava muitas vogais e falava à peixe...

Foi graças a este peixinho que aprendi a ser peixe. Quando eu já era um peixe a sério, saltei para dentro do lago e nunca mais ninguém me viu.

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Sábado, Junho 02, 2007

Citações #5


Escher
E já que falamos de peixes...
Às vezes um parágrafo é suficiente para excitar a imaginação. O que se segue inspirou o conto que se deixará no próximo post...
Na pág.18 do “O Cardeal Napellus”, de Meyrink, na Biblioteca de Babel:
"Giovanni Braccesco reanimou a discussão falando dos nossos estranhos sistemas de captura dos velhíssimos e musgosos siluros que vivem uma noite eterna nas impenetráveis profundezas do lago, nunca saem para a luz do Sol e recusam qualquer isco que a natureza lhes ofereça; só vão atrás das formas mais excêntricas que o pescador consegue conceber: lâminas argênteas e brilhantes em forma de mão, que dançam, saltitando ao serem arrastadas, ou morcegos de vidro vermelho com anzóis perfidamente ocultos nas asas."

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Sexta-feira, Maio 25, 2007

Malhoa, "Praia das Maçãs", 1918
Quando um blogue adormece é difícil de acordar...
O Trelogue sempre gostou de dormir e agora estava a ser um caso sério levantar-se do quente da cama.
Quem o acordou? Foi um cardume de sardinhas que devorei!
Sim! Foi quando comecei a comer as sardinhas que resolvi fazer um post mete-nojo, daqueles que se fazem para cantar a vida!
Eu sei que não é bonito meter-nojo assim, mas, caramba, quem estiver muito incomodado venha-me visitar que os dias já se vão fazendo bons no Algarve e eu levo-o a comer bom peixe! E depois ainda o enfio numa bela esplanada com o mar tão perto que vão odiar-me por eu poder fazer isso todos os dias...

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Domingo, Maio 20, 2007

Espreguiça


O nosso Trelogue está a espreguiçar-se depois de uma longa hibernação...
Vamos ter actualizações esta semana!

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Segunda-feira, Março 12, 2007

Só a mim #3

A rúbrica “só a mim...” está de volta e — coincidência ou não — com mais um drama sobre carros que não pegam!

Nós, os cavaleiros andantes, quando vemos uma velhinha aflita vamos logo ajudar.
E assim foi hoje...

Rodei a chave à velhinha e concluí que o carro não trabalhava.
Resolvi então que o melhor a fazer era empurrar a velhinha.
Expliquei os procedimentos da pega de empurrão e atirei a velhinha mais o carro pela ribanceira abaixo.
A velhinha pegou e eu fiquei satisfeito.
Fiquei des-satisfeito quando percebi que a minha mala tinha ficado dentro do carro da velhinha!!
Corri atrás da velhinha mas o cavalo dela andava mais do que o meu.
Pus-me no meio da estrada, parei um carro desconhecido e mandei seguir a velhinha.
O cavalo da velhinha já não se via. Andámos às voltas. Velhinha não.
Volto para casa com o ar desanimado de cavaleiro apeado. Velhinha à porta de minha casa com mala na mão. Viva a velhinha!

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Terça-feira, Março 06, 2007

Maconfúcio

Heinrich Khunrath, Amphitheatrum sapientiae aeternae

Está mais do que provado que todos os reis são vaidosos e que querem ficar na História. Até há quem pense que a História foi uma invenção dos reis para que se escrevessem livros sobre eles...
Se eu fosse rei, ia estar preocupado com o que é que se iria aprender sobre mim na escola e faria um esforço para ser um rei simpático, mas muitas vezes os reis a sério acham que é mais fácil que se fale deles se forem maus ou se fizerem coisas esquisitas. Penso que, no fundo, essa é a verdadeira razão para a incrível história de Maconfúcio, rei e imperador da Maconfúcia.


I

Há cento e cinquenta anos atrás (ou há quinhentos, não me lembro bem...), existia um rei chamado Maconfúcio. Para falar a verdade, ele não era bem rei: era imperador.
A diferença é que os imperadores são uma espécie de reis que gostam tanto de mandar que não lhes chegam as pessoas dos países deles e mandam nas dos outros também.
Como qualquer rei que se preze, Maconfúcio vivia num grande palácio que tinha, nada mais, nada menos, do que doze dúzias de quartos, que são, como sabem, 144.
Quem não achava graça nenhuma às grandezas do palácio era a D. Esmeralda, a chefe das limpezas, que tinha, todos os dias, de correr todos os cantinhos de todos os quartos à procura de sujidade porque sua Alteza, o Imperador, não admitia o mais pequeno grão de pó!
Os corredores, salas, salinhas e salões eram passados à lupa e a D. Esmeralda — exemplar no seu trabalho — limpava tão bem que deixava tudo impecável e até limpava sítios esquisitos que habitualmente as pessoas não limpam em casa (como, por exemplo, a cola da fita-cola e o pó da água que sai da torneira).

Um dia, ao acordar, o imperador Maconfúcio viu um grão de pó na ponta do nariz! Ficou furioso e começou, aos gritos, a chamar a D. Esmeralda:
— D. Esmeralda!! D. Esmeraaaaaalda!!
A pobre senhora apareceu a correr, esbaforida, já a perceber que tinha havido desgraça com as suas limpezas...
— D. Esmeralda, estou a ver que vou ter de te cortar a cabeça! Como é que é possível haver pó no meu nariz?
— Fique Vossa Majestade sabendo que eu já havia detectado esse grão de pó mas que não quisera limpá-lo com receio de acordar Vossa Alteza!
— Ahaaa! E então porque não o apanhaste antes de ele me pousar nariz? Assim que o grãozinho de pó entrou no palácio devias tê-lo apanhado no ar... Este palácio é muito porco e a culpa é tua!
Ao ouvir dizer que o palácio não reunia todas as condições de higiene que satisfizessem as necessidades do Imperador, a boa da D. Esmeralda perdeu a cabeça.
[quando se diz que perdeu a cabeça não significa que o Imperador lha tenha cortado. É apenas uma maneira de dizer que ela ficou furiosa e fez uma coisa que nunca faria se estivesse calma e que neste caso consistiu em gritar ao Imperador.]
— Se Vossa Majestade fosse um Imperador a sério já tinha proibido o pó na Maconfúcia toda e assim já não corria o risco de ele lhe entrar pela janela!
O Imperador, primeiro ficou surpreendido porque nunca ninguém tinha gritado com ele, mas depois disse com um ar muito satisfeito:
— Esmeralda, és uma querida! Tiveste a melhor ideia que já ouvi na minha vida... A partir de hoje fica decretada a extinção do pó! Não mais pó na Maconfúcia! Fim ao pó! Serei recordado para a posterioridade como o homem que aboliu o pó!


II

Uma empresa desta dimensão precisava de ajuda científica especializada e Maconfúcio recorreu ao seu mago e inventor de serviço, o famoso Theophrastus Bombastus Trocacelso.
Trocacelso tinha um laboratório alquímico numa cave do palácio, no que era, provavelmente, o sítio mais empoeirado de toda a Maconfúcia mas onde ninguém se atrevia a entrar...
Mesmo quem não ache graça a um laboratório, ficaria espantado ao ver este, cheio de maquinaria a funcionar e incríveis experiências, no meio de uma desarrumação de almofarizes, retortas, cadinhos, tubos-de-ensaio, fumos e ebulições...
Mais interessante do que o laboratório só o próprio Trocacelso, cuja figura merece algumas linhas na nossa história.
Se fecharem os olhos e imaginarem um alquimista, ficarão com uma imagem muito aproximada do aspecto do Trocacelso. Para quem não faça ideia de como é que os alquimistas são, eu posso dar uma ajuda: antes de mais, dir-se-ia que se zangaram com os barbeiros do Mundo, porque todos têm uma barba branca comprida e o cabelo ainda maior. Assim era a barba do Trocacelso: comprida e branca, apenas um bocadinho chamuscada nas pontas devido a uma explosão recente. E são assim os alquimistas... cabelo e barba...

Maconfúcio entrou no laboratório e sentiu-se pouco confortável no meio daquela barafunda, pelo que falou depressa e explicou o que pretendia.
Trocacelso ouviu com atenção. Acabar com o pó...
Pensou, pensou, pensou… e inventou o aspirador.
Claro que não era um aspirador como aqueles que estamos habituados a ver hoje em dia (não se esqueçam de que a história se passou há duzentos anos — ou há mil, não me lembro bem...): este aspirador punha-se às costas e funcionava a manivela. Mas era muito potente e logo da primeira vez que Trocacelso o experimentou apanhou um susto porque se ia aspirando a si próprio...
Ao fim de alguns aperfeiçoamentos, a máquina estava acabada e pronta para ser produzida em grande escala: todos os maconfucianos teriam direito ao seu aspirador!



III

No dia seguinte, pôde ler-se na primeira página do único jornal do Império:

“Maconfúcio, primeiro imperador da Maconfúcia, declara que a existência de pó não é conforme à felicidade do reino.
Todos os cidadãos devem empenhar-se activamente na supressão do pó sob pena de lhes ser cortada a cabeça.”

Assim que as pessoas leram o jornal houve grande agitação.
Ainda nessa tarde, uma delegação de notáveis maconfucianos foi pedir esclarecimentos ao imperador: tratava-se dos fabricantes de chocolate em pó, de pó de talco, de pó de arroz, de moinhos de café, de farinhas e outros pós, que vinham saber como é que poderiam continuar a desenvolver, em segurança, a sua actividade profissional.
Sensível ao problema, Maconfúcio nomeou uma equipa de Físicos das Partículas do Pó para se debruçarem sobre a importante questão de definir o que era o pó. Nomeadamente, foi desenvolvida para aplicação uma “Chave Dicotómica do Pó, Partículas e Poeiras”, com verdadeira nomenclatura taxonómica sistemática.
Ao mesmo tempo, foi nomeada uma outra comissão, desta vez de Filósofos, para pensar no problema dos Fundamentos Epistemológicos da Poeira Contemporânea (sem prazo para apresentar conclusões).
Apareceu também no palácio o chefe da Polícia Real para perguntar se podiam continuar a chamar-se po-lícia ou se teriam de mudar o nome só para “lícia”. O generoso Maconfúcio não só manteve a designação de “polícia”, como também não alterou a grafia nem a fonética de nenhuma palavra começada por “po”. Foi, no entanto, intransigente no que dizia respeito a palavras mal pronunciadas e proibiu que fosse dito “pograma” (em vez de “programa”).

As semanas que se seguiram foram de grande azáfama: todo o país esteve mobilizado na extinção do pó e, deve dizer-se, com resultados surpreendentes.
Ao fim de dez dias, já era complicado encontrar pó; e, passadas três semanas, quando alguém conseguia ver alguma poeira em suspensão… fazia uma festa!

Infelizmente, não tardou muito até que começassem a surgir problemas:
Para começar, houve várias greves de empregados de limpeza que viram os seus postos de trabalho ameaçados pela grande redução da sujidade e pelos novos hábitos higiénicos da população.
Em seguida, alguns grupos subversivos com tendências terroristas dedicaram-se à fabricação de pó com a intenção política de desacreditar o Imperador. A contra-ofensiva seguidista consistiu na criação de Brigadas de Limpeza Voluntária que trabalhavam 24 horas por dia.
Problemas de saúde pública surgiram quando algumas pessoas, desde sempre habituadas a viver na porcaria, começaram a sentir-se mal no novo meio hostil. Nalguns casos mais graves, houve mesmo a necessidade de prescrições médicas: comprava-se nas farmácias uns saquinhos de pó que se podia espalhar pela casa para tranquilizar os pacientes.
O conflito mais grave veio da parte dos vizinhos da Maconfúcia (e seus eternos inimigos...) que foram sacudir tapetes para a fronteira quando o vento estava de feição, o que quase desencadeou uma guerra.


IV

Mal ou bem, todos estes problemas se resolveram, mas a história nem por isso acabou da melhor maneira.
Talvez comecem a suspeitar da natureza do Grande Desastre se vos disser que para guardar o pó da Maconfúcia foram construídos armazéns especiais que eram cheios até já não caber nem mais isto [gesto de muito-pouco-quase-nada] e que depois eram muito bem fechados, sendo as chaves entregues ao imperador.
Os armazéns eram enormes e estavam a ABARROTAR de pó.

Um dia, ao acordar, Maconfúcio encontrou uma bola de cotão no umbigo. Ficou furioso e começou, aos gritos, a chamar a D. Esmeralda:
— D. Esmeralda!! D. Esmeraaaaaalda!! Este palácio é uma imundice! E a culpa é toda tua...
A D.Emeralda desta vez não respondeu. Virou as costas ao imperador, e quando ia a sair, um sorriso maléfico iluminou-lhe a rosto ao mesmo tempo que se ouviu um tilintar de chaves no seu bolso.

O imperador assistiu aterrado à gigantesca nuvem de pó que se elevou nos céus da Maconfúcia e que começou a avançar direitinha para o palácio.
Só teve tempo para fugir antes de os 144 quartos do palácio ficarem soterrados.
Eu disse 144? Não é verdade... 143, porque o laboratório do Trocacelso estava completamente preenchido com a sua mais recente invenção: uma máquina — que pelos vistos funcionava muito bem — e que era um gigantesco íman para atrair o pó!

FIM



Pedro Medina Ribeiro
Lagos, 5 e 6 de Março de 2007

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Domingo, Março 04, 2007

Aliens


Em 1995 um programa cultural da BBC organizou um passatempo para descobrir qual o poema favorito da Grã-Bretanha. Houve mais de 12000 participações e os cem poemas vais votados foram reunidos em livro.

A interessante iniciativa impressiona por mostrar a maturidade cultural de um país.
Pergunto-me várias vezes se Portugal – com ou sem verdade, suposto país de poetas... – seria capaz de escolher os seus poemas. Não me parece...
Talvez o país não tenha massa-crítica para poder aceitar uma proposta cultural dessa natureza. Talvez... mas quantas pessoas conseguem indicar cinco poemas de que gostem?

Agora a RTP põe o país a escolher os grandes portugueses.
A iniciativa, embora mais modesta, lá terá as suas virtudes...
Sem grande surpresa, Fernando Pessoa é um dos dez “finalistas” e, como tal, teve honras de publicidade de rua. Nos mupis, sobre a sua conhecida fotografia propõe-se uma questão: “inspirado ou alienado?” (como quem pergunta: “este tipo tinha ‘jeitinho’ para a poesia ou deveria ter tido apoio médico especializado?”)
É assim que a televisão estatal (a nossa BBC...) trata um dos maiores poetas do séc.XX que, por acaso, até era português. Sem poemas...

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Domingo, Fevereiro 25, 2007

Adivinha

Os irmãos Lumiére

E depois de estar a queixar-me das distâncias, não é que tive direito a uma visita inesperada?! É verdade: a Sarah veio passar o Carnaval a Berlim e lá fui ter com ela...
Nesta relação à distância, se há coisa de que não me posso queixar é da previsibilidade!

Antes de escrever mais sobre Berlim adivinhem que suculento evento foi o meu programa de sábado à noite... Dou três hipóteses:
a) assistir apresentação do novo filme de François Ozone na presença do realizador e do elenco?
b) ir a uma cerimónia de entrega de prémios cinema recheada de vedetas? (o Willem Dafoe, o Javier Barden, o ranhoso do Gael García Bernal que devia tropeçar e partir o nariz, etc.)
c) encontrar os Franz Ferdinand e dizer-lhes que eles são uma banda como deve de ser?

Qualquer das alíneas é uma resposta correcta porque tive de tudo isso um pouco na 57ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim!


Tivemos direito a passadeira vermelha...





Eu numa foto pela primeira vez no Trelogue!
Com os Franz Ferdinand...


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Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

Um poema de S.Valentim

Jahre Viking - o gigante dos mares

Às vezes, quando estou mais triste,
Lembro-me que há um oceano entre nós
E apetece-me escrever palavras bonitas
Sobre um mar de permeio.

Sobre como vou nadar um bocado
Para te ver esta noite
E chegar muito cansado mas feliz
De bruços aos teus braços
(com uma patética alga na cabeça
como se eu fosse um peixe esquisito...).

No caminho, vou conversar com uma sereia
E apanhar uma boleia, montado à cobói,
Nas costas de uma baleia!
Porque estranhas coisas acontecem no Mar,
Entre ti e mim...

Grande é o mar,
Mas apetecia-me atravessá-lo a nadar
Para te ver, esta noite, meu amor
– e que bons beijos me darias
se te aparecesse, assim, molhado!

Ele há ondas, ilhas e até petroleiros,
Entre nós, meu amor.
Mas apetecia-me nadar até ti,
E dissolver-me um pouco,
De bruços nos teus braços,
Nadar em ti,
E tu a saberes-me a sal.

——
Grande é o mar.
Estás longe.
É uma gaita!

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Voto por telecomando

Nunca me abstive em eleições ou referendos. Por convicção democrática, embora convencido de que a Democracia está longe de se esgotar nas urnas, desde que sou eleitor tenho cumprido o meu dever e feito uso do meu direito.
Desde que trabalho, moro longe da minha secção de voto e vencer essa distância tem, por vezes, implicado um certo esforço. Há dois anos a viver em Lagos, esse esforço representa uma viagem que, na ida e na volta, perfaz 650km e que se acompanha de uma despesa de cerca de 40 euros em transportes públicos, mais de oito horas de viagem (o que acaba por ser um compromisso de fim-de-semana inteiro...) e os respectivos prejuízos ecológicos. Tudo isto porque, por alguma razão incompreensível, não nos é permitido votar em qualquer secção de voto!
O derrubar deste constrangimento faria bastante pela Democracia mas, infelizmente, não se vêem esforços no sentido de alterar esta situação.
Desta vez, porém, arranjei uma forma mais inteligente de participar no referendo sobre a IVG. Foi simples: ciente das implicações morais deste referendo, não me foi difícil encontrar um amigo lisboeta que se ia abster de votar. A seguir, foi só pedir-lhe o favor de ir lá pôr a cruzinha no quadrado da minha vontade e ter confiança na nossa amizade.
Só tenho uma dúvida: alguém me sabe confirmar se, com esta abstenção formal, perdi o direito de me candidatar à Presidência da República?

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Domingo, Fevereiro 11, 2007

Chove;
O céu diz que não nos quer na rua.
Mas que prazer é maior que desafiar o céu,
sentirmo-nos grandes como ele
e, depois, chegar a casa e trocar de roupa?

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Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

Canção do Omkla


Canção do Omkla
[traduzida do spritzlang]

Há canções sobre cerveja
E canções sobre vinho,
Mas reparei no outro dia
Que não há canções sobre omkla.

Os gnomos na montanha fazem omkla,
E é um segredo de muitos anos
Como eles fazem omkla.

É de certeza difícil
E requer muita prática
(e grandes barricas de madeira escura
e ervas que só eles sabem).

É um segredo milenar,
Dos segredos da montanha...

Que bom que é omkla!

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Resposta ao post anterior...

Para falar a verdade não tenho feito grande coisa, mas comprei um tambor e vou andar por aí a fazer barulho...

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Que andará o dono do Trelogue tão entretido a fazer para não dizer nada?

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Sexta-feira, Janeiro 26, 2007

Dos olhos

Tão castanhos...
Nem mais, nem menos
— tão.
Fundos, profundos,
castanhos.

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Quarta-feira, Janeiro 24, 2007

I love you!

Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

Aforismo


O Trelogue acorda finalmente para o novo ano!
Eis-me recém chegado de Londres e não há nada como viajar para espevitar os neurónios...
Deixo-vos um aforismo profundismo:
"Viajar é como ler muitos livros muito depressa".

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Quarta-feira, Dezembro 27, 2006

Estamos de férias!
E sabe mesmo bem...

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Segunda-feira, Dezembro 18, 2006

Citações #4

The hotel room

Para deixarmos, finalmente, a Margarida descansar (e bem merece, que tem muito em que pensar agora!) vamos acabar com duas citações. Uma é literária, a outra é gráfica.

No “Anjo Ancorado”, do meu favorito José Cardoso Pires, fui, também, encontrar uma Guida. E embora seja uma mulher muito diferente da minha Margarida (para não dizer oposta...), também serve de protagonista para falar de solidão, amor e relações.
Os parágrafos que escolhi tratam antes de poesia e de surrealismo, outros dois temas que são queridos ao Trelogue:

“Achou isto bonito, próprio dum poema (...) e pôs-se a alinhavar frases ao acaso:
«cala-te, vento
cala-te, pássaro...»
Guida tinha o gosto de se ouvir a sós. No banho ficava tempos e tempos a recitar palavras à toa e em todas descobria um significado especial, relacionado com coisa que só ela sabia. Um sentido oculto, como sucede com surrealistas nas suas escritas de ocasião.
(...) é natural. Vivemos numa época em que cada qual fala para si mesmo na companhia de muitos outros.”
p.76, nas edições Planeta Agostini

Para ilustrar o conto lembrei-me das telas desoladas de Edward Hopper – esse pintor da solidão. Achei imagens tão oportunas que quase não conseguir escolher... Aqui ficam algumas que encontrei:


Morning sun



The circle theater

Night hawks


The office at night

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Domingo, Dezembro 17, 2006

Querem opinar sobre a Margarida?

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

"New York movie", Edwar Hopper, 1939
IV

Quando chegou ao cinema, faltavam cinco minutos para as três.
Ligou o computador e enquanto este arrancava foi à casa de banho.
O Sr. Álvaro varria o átrio.
– Deixe estar que eu já faço isso... – ofereceu-se Margarida.
– Já está quase. – respondeu ele, sem olhar.
O Sr. Álvaro tinha começado a trabalhar no cinema como electricista e tinha ficado a fazer de tudo: entre outras coisas, era revisor de bilhetes, levava as pessoas ao lugar e, quando era preciso, também enrolava as bobines e tratava da projecção. Já Margarida começara por fazer de tudo e agora só fazia a bilheteira e alguma contabilidade.
Margarida gostava de trabalhar no cinema. Dantes, quando se despachava, costumava ir ver o resto da sessão. Agora estava farta de filmes e, invariavelmente, achava o cartaz demasiado provinciano para o seu gosto, mas retirava prazer de outras coisas, nomeadamente do contacto com as pessoas.

Sentou-se no guiché e tirou um livro da bolsa mas não o abriu logo. Pousou-o ao lado do teclado e cruzou os braços. Parecia que ia ficar assim muito tempo...
Margarida tinha um passatempo secreto: se um homem, ou uma mulher, vinha sozinho comprar um bilhete, reservava um lugar adjacente para outro solitário do sexo oposto que eventualmente aparecesse. E se ela, ou ele, aparecesse, Margarida esperava pelo fim da sessão, curiosa para ver se a proximidade que tinha provocado tinha sido aproveitada.
Claro que nem sempre podia fazer a graça: era necessário que a sala estivesse suficientemente composta para que não se levantassem suspeitas sobre as razões da proximidade oportuna mas, já por mais de uma vez, o seu estratagema tinha funcionado e ainda que, tanto quanto ela soubesse, não tivesse feito casamento, houve quem tivesse ficado a perceber melhor a história de um filme por ter tido companhia para discutir os pormenores mais difíceis, num bar qualquer da cidade.
Margarida achava que um encontro no cinema era romântico. E qualquer pessoa estaria de acordo, a menos, claro, que desconfiasse da natureza aleatória da atribuição de assentos e suspeitasse que, quem tinha juntado o casal de solitários em bancos de cinema consecutivos, era antes a vontade de alguém – que teria tido todo o prazer em ter sido vítima de partida igual.
Mas mesmo que não fosse um início romântico, que importa? Nem todas as relações podem começar como nos filmes... Não, definitivamente não interessa como é que uma relação começa: só interessa como acaba!

A sessão da noite já tinha começado há vinte minutos. Margarida fechou o livro e arrumou-o na mala e preparou-se para encerrar a bilheteira.
O senhor Álvaro chegou-se à porta do guiché em silêncio e olhou a figura de Margarida sentada de costas. Reparou nas saias e demorou-se-lhe nas pernas. Depois, disse-lhe em voz baixa:
– Estás muito bonita hoje...
Margarida, que o tinha sentido aproximar-se por trás e que se tinha sentido observada, voltou-se para ele devagar e sorriu, sem dizer nada. Voltou-se novamente para a frente e compôs o cabelo com a mão, olhando o seu reflexo no vidro.
O homem chegou-se um pouco e parou:
– Já não vem ninguém...
Estendendo o braço sobre o ombro dela fechou a persiana, deixando o interior do guiché invisível aos olhares exteriores.
Margarida inclinou a cabeça como se oferecesse o pescoço a um beijo.
O gesto de consentimento foi subtil e não é muito provável que o Sr. Álvaro o tivesse lido dessa maneira. Provavelmente limitou-se a fazer o que lhe apeteceu – e talvez o hálito a álcool que Margarida sentiu na pele explicasse a improvável aproximação.

Enquanto voltava para casa, perdida em pensamentos, Margarida sorria. O embrulho do bolo de aniversário que tinha encomendado na pastelaria balançava e, de vez em quando, metia-se no meio dos passos. Pensava para consigo que não importa como é que as relações começam, só importa como é que acabam...


FIM

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Segunda-feira, Dezembro 11, 2006


III

O sino da igreja deu o meio-dia em badaladas lentas e foi lentamente que Margarida fechou a porta de casa, sentindo nos dedos cada volta da chave – o som do bronze nas engrenagens da fechadura.
Nas escadas já se sentia o cheiro a refogado da cozinha dos vizinhos, mas Margarida ainda não tinha fome e o sabor anisado da pasta-de-dentes que permanecia na boca afastava os pensamentos sobre comida.
Como era fim-de-semana havia matiné e ela teria de estar no cinema um pouco antes das três para abrir a bilheteira. Até serem horas de trabalhar resolveu ir ver lojas e passear à beira-rio. Logo comeria qualquer coisa numa pastelaria.

Numa comemoração íntima do seu aniversário, tomara a rara decisão de usar uma saia e maquilhar-se. A saia e a maquilhagem eram discretas mas, por serem feitas para isso mesmo ou apenas por não serem habituais em Margarida, não passariam despercebidas e ela não tardou a sabê-lo. Enquanto descia a rua onde morava, um vizinho que só conhecia de vista, olhou-lhe demoradamente para as pernas de uma forma demasiado evidente. O gesto desagradável nem por isso incomodou Margarida: naquele dia descia a rua quase feliz.
Era princípio de Outono, a sua estação preferida. Apesar do Sol sem nuvens, fazia frio. Mas era um frio agradável e nas ruas velhas da cidade sentia-se o cheiro da lenha que se queimava nas lareiras. Era a primeira vez, naquele ano, que sentia esse cheiro e inspirou longamente.
Margarida cultivava a sensibilidade para essas pequenas coisas. Se tinha oportunidade, observava longamente o pôr do Sol, o mar ou o céu estrelado e sabia, por exemplo, que daí a dois dias seria lua cheia. Secretamente julgava-se especial por isso. No entanto, o que lhe dava mais prazer era observar as pessoas. Na pequena cidade não há jardins, mas um comprido passeio de calçada acompanha o rio na sua extensão e, quase todos os dias, Margarida percorre-o, olhando os rostos com que se cruza. Não faz grandes conjecturas, apenas se fixa num o tempo suficiente para colher uma impressão, depois salta para outro e assim sucessivamente, de cara em cara.
Nesses passeios é frequente encontrar conhecidos seus e foi o que aconteceu nesse dia...

Ilda vinha da missa. Era uma mulher de meia-idade, amiga dos pais de Margarida.
Andava devagar, olhando para o rio com uma expressão triste e, aparentemente, se Margarida não lhe tivesse acenado, passaria por ela sem a ver. Como se mostrou agradada com o encontro, caiu a suspeita de que o tivesse querido evitar – a princípio foi ainda um pouco contida nas palavras, mas depressa se entregou ao prazer que lhe dava a atenção de Margarida e falou longamente sobre si, mostrando que a reserva inicial não era resguardo para a sua privacidade mas antes um receio de incomodar os outros com assuntos que só a ela diziam respeito.
Contou, por exemplo, que se tinha divorciado havia pouco e que, agora que o filho tinha ido estudar para fora, passava os dias a chorar.
Ilda era uma mulher bonita que se arranjava bem e, no entanto, a solidão que acusava, por causa da idade, não remediaria facilmente com casamento. Claro que se fosse homem seria diferente... não faltam homens a casar com essa idade.

Este encontro encheu Margarida de melancolia. A profunda solidão de Ilda fazia-a pensar no seu próprio futuro... Também ela estava sozinha sem grandes perspectivas de encontrar companhia no amor e tinha medo do abandono que sentiu na amiga.
Margarida sabia que, se quisesse, apesar de tudo, poderia arranjar alguém. Mas “alguém” não queria. Não acreditava em príncipes-encantados nem na existência de uma metade, algures, à sua espera. Achava que as pessoas se encontram e se aprendem a gostar, mas não queria estar com uma pessoa qualquer só para não estar só. Pelo menos enquanto a solidão não esmagasse e enquanto o seu corpo não fosse demasiado velho para poder ter um filho. Olhou em volta: quantos de nós não são filhos da solidão?

Sentou-se no café e procurou o telemóvel na bolsa: “Duas chamadas não atendidas”. “Mãe”.

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Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

II

Sentou-se na beira da cama de olhos fechados e os pés nus tocaram o chão frio.
Tacteou até encontrar os chinelos que enfiou sem abrir os olhos e deixou-se ficar sentada uns segundos mais. Finalmente, apoiou as mãos no colchão e levantou-se, fazendo a cama ranger um pouco.
Depois, devagar, vestiu o robe que tinha aos pés da cama e saiu do quarto, arrastando os passos sem convicção. Atrás dela, de cauda levantada, foram os dois gatos e assim, para todos, começava um novo dia.

Sentia vontade de ir à casa-de-banho mas, por uma inconsequente disciplina auto-infligida que já havia feito tradição naquelas manhãs, fez questão de alimentar primeiro os gatos e de pôr a ferver a água para o seu chá.
A luz rasante do Sol que entrava pelas lâminas metálicas das persianas reflectia-se nos azulejos ocres do chão da cozinha e encandeava. Margarida atravessou a cozinha de olhos semi-cerrados e tirou do frigorífico o pacote do leite e uma lata aberta de comida para gato. Quando se baixou para a tigela, os joelhos estalaram.
Impacientes, os animais começaram a beber o leite enquanto ainda jorrava do pacote e Margarida, com um garfo, esvaziou a lata para a tigela. Agora já podia tratar de si...

Levantou o tampo da sanita e sentou-se.
Voltou a fechar os olhos – sentia uma preguiça imensa e apetecia-lhe voltar para a cama –, mas forçou-se a abri-los e fixou a imagem do espelho que tinha à sua frente: trinta e dois anos... o Secundário e dois gatos.
Deixou-se estar assim sentada, de olhar perdido, até ouvir o estalido metálico do interruptor da chaleira eléctrica e ficar a saber que a água já tinha fervido.
[Margarida, que tem um livro sobre chás, sabe que para preparar as infusões não se deveria deixar a água ferver, mas também sabe que jamais notaria qualquer diferença e por isso usa o prático fervedor eléctrico].

Apoiada à bancada da cozinha, segurava a caneca do chá com as duas mãos e encostava ao queixo a cerâmica quente. Sentia o vapor perfumado humedecer-lhe a pele da face e distraía-se a olhar os gatos que, satisfeitos, já brincavam. De vez em quando, bebia um golo do chá.
O silêncio da manhã de sábado deixou-lhe ouvir o toque do telemóvel a anunciar uma mensagem. Com uma falsa lentidão com que pretendia simular para si própria indiferença, pousou a chávena e foi buscar o aparelho ao quarto: a operadora do telemóvel desejava-lhe feliz aniversário.

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Quarta-feira, Dezembro 06, 2006

I
Margarida divide o mundo entre as pessoas que gostam de cães e as que gostam de gatos. As que não gostam de animais não são pessoas e acho que ela nunca se apercebeu de que pudessem existir outras categorias. Margarida pertence à segunda.
No quarto cor-de-rosa em que acorda, as imagens de gatos são bibelôs frequentes e, se pudesse, haveria, pelo menos, uma dúzia de gatos vivos nessa galeria – em vez dos dois que o apartamento comporta.

Ela nunca fará a psicanálise desta sua paixão e ainda bem para ela. Fazê-la seria cruel. Esse amor nasce da diferença entre Margarida e os animais que tanto aprecia: o seu corpo é o de alguém a quem se chama ‘forte’ e a sua beleza – que a tem – foge aos cânones consagrados.
Claro que ela já sabe tudo isso: para além dos namorados que não tem e que não teve, na bilheteira do cinema em que trabalha os olhares das pessoas com quem fala não se distraem dos bilhetes, do troco, dos lugares. Não se detêm para admirar nada nela.
Por vezes, percebe o desejo mal controlado de certos homens mas, mesmo quando se adivinha mais ávido, não é pela mulher que ela é mas apenas pela sua condição de fêmea, e depressa se distraem com outra qualquer que passe e que não esteja separada deles por um vidro de bilheteira.

O gato estira-se infinitamente para passar pela abertura estreita que fez ao empurrar a porta com a cabeça e atravessa o quarto, silencioso, em direcção à cama.
[O andar felino é sensualidade destilada. Nesse movimento – e é um simples andar – o gato tem tudo aquilo que desejaríamos: sensualidade, elegância, erotismo... É como se um deus egípcio tivesse procurado as nossas inseguranças e tivesse feito um animal para admirarmos – e, depois de lhe chamar “gato”, o pusesse ao nosso colo mas nunca no-lo deixasse realmente possuir]
Este vem acordar a dona e reclamar o seu pires de leite. A agilidade do salto põe-o na cama como uma respiração – sem esforço – e Margarida acorda devagar.
O corpo de bruços e a cabeça contra a almofada escondem-lhe os olhos da luz da manhã que entra livre pela janela. Ao sentir o gato consigo na cama, roda o corpo e estica o braço até tocar no animal e envolve-o com a mão e o antebraço.
O segundo gato entra pela porta e ouve-se o guizo que traz ao pescoço. Vem ao mesmo...

Na lentidão do despertar, os pensamentos chegam à vez: primeiro lembra-se que é sábado e depois que é o dia do seu aniversário: faz trinta e dois anos. Então, sem olhar, estica a mão à mesa de cabeceira e procura o telemóvel, às apalpadelas. Está curiosa para saber se, durante o sono, sem que ela tivesse ouvido, lhe chegaram mensagens de parabéns. Ainda não.

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Sábado, Dezembro 02, 2006

A seguir no Trelogue

Tenho estado a escrever uma história que já me "perseguia" há um par de anos (e que, por qualquer motivo, ainda não tinha sido capaz de escrever...).
Tem quatro partes e outras tantas páginas.
Deixarei aqui amanhã a primeira parte e, depois, uma por dia...
Gostava muito que a lessem e opinassem, sentido-se à vontade para dizer o que gostaram menos.
Como de costume, quem não quiser deixar aqui comentários pode escrever-me para o meu endereço de correio electrónico: folies@graffiti.net

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Estava à mesa de jantar
quando decidiu: "Faça-se a guerra!"
Chamou o criado e disse:
—Traz-me o telefone.

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Terça-feira, Novembro 28, 2006

Sou Mestre Alheira!

As alheiras quando rebentam é a sério!

Gosto dos tachos...
Gosto de cozinhar o meu jantar e andar pela cozinha a dar ordens às cenouras.
Outro dia fiz lentilhas. Hoje é um dia feliz: sou Mestre Alheira.

A cozinha não é fácil... E nem sequer estou a falar do ponto caramelo ou da maionese — eu estou a alhos-luz dessas aventuras... O meu drama neste momento é a alheira: sempre que desafio o fio da alheira dá bandalheira.
Depois de repetidas experiências, já estava pronto a convencer-me de que as alheiras se comem esfrangalhadas e que tal advinha do próprio facto de serem feitas de frango.
[queiram desculpar: hoje estou parvo...]
Ter-me-ia certamente convencido disso se não se desse o caso de que, cada vez que eu vou a um restaurante, me servirem um cocó perfeito!
[meeeeesmo parvo!]
Poder-se-ia dar o caso de as sustentarem com plasticina ou uma cera especial mas várias pessoas foram-me dizendo que eles vão lá com furos de alfinete e golpes de faca.
Tentei todas essas cirurgias em vão...
Ontem achei que já tinha ultrapassado o luto das últimas alheiras que matei e resolvi dar-lhes uma nova oportunidade. Comprei duas roliças de Mirandela fui-me a elas (são duas porque dos destroços das duas sempre como qualquer coisa...)
Fiz as incisões habituais e surpreendentemente a coisa correu bem.
O único drama foi que, desta vez, tive mesmo de comer duas alheiras! (o que, mesmo para o meu descomunal estômago, precisou de umas garfadas suplementares...)

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Quinta-feira, Novembro 23, 2006

Super-heróis


Clark Kent cruzava já a porta da rua do Daily Planet quando os seus super-ouvidos captaram o grito aflito de Lois Lane.
Com passo rápido entrou na discreta cabine telefónica e fechou a porta.
Instantes depois um magnífico ser alado eleva-se nos céus da cidade em busca da mulher que ama.
Um homem interroga-se:
- É um pássaro?
- Não!! É o Super-Homem!


Peter Parker não tem tempo de estacionar a velha motorizada em que faz a entrega das pizzas: entra com ela pelo beco deserto e é ainda sentado que arranca as roupas que lhe mantêm secreta a identidade de super-herói.Cobre a cara com a máscara vermelha e olha para cima. Depressa encontra o que procura: umas enferrujadas escadas de incêndio. É para lá que lança a teia que o puxa para os terraços de Nova Iorque...


Os holofotes iluminam o céu de Gotham City e projectam nas nuvens a figura estilizada de um morcego.
O sinal não passa despercebido a Bruce Wayne que, contrariado, interrompe o beijo que dava ao seu namorado. Não se passaria um minuto completo até que se abrisse uma porta na montanha por baixo do palácio e o Batmobile arrancasse a chiar em direcção à grande cidade.

"Batman beguins", Annalee

O respeitável professor de Físico-Química atravessa o portão da escola despedindo-se timidamente da funcionária e sacudindo das roupas o pó do giz. Uma criança cruza-se no seu caminho e ele sorri, passando-lhe a mão pela cabeça.
Entra no seu Profmobile e arranca devagar, parando na passadeira para a velhinha passar.
Minutos depois, o veículo imobiliza-se no discreto parque de estacionamento, iluminado a amarelo pelas soturnas lâmpadas de sódio.
Quando a porta se abre, é outro o homem que desce: as roupas urbanas largas - e a expressão de desafio que exibe incontida - tornam impossível relacioná-lo com o nosso professor. Quando as rodas do skate tocam no chão com o seu ruído característico, apenas um vagabundo o presencia. O homem sorri ao ver o Passarinho: um skater que patrulha as ruas de Lagos em busca de criminosos para entregar à Justiça...

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Quarta-feira, Novembro 22, 2006


E é já amanhã que relatamos a primeira experiência clandestina sobre as quatro rodas do sk8...
Estejam atentos!

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Terça-feira, Novembro 21, 2006

D.Fuas de Skate

Vitral com a lenda de D.Fuas Roupinho, Quinta da Regaleira (Fev05)
Quadra Popular (?)
“Na praia da Nazaré
reina grande burburinho:
as senhoras de roupão
e D.Fuas de Roupinho!”

Fiz duas compras gloriosas este fim-de-semana.
A primeira foi um roupão invernoso. Desejo antigo...
Aquilo é um luxo de roupão! Tem uma cor gay-sóbrio (como todos os roupões deviam ter...) e umas mangas compridas que estorvam os movimentos. Se eu pudesse andava sempre de roupão!

Claro que a compra de um roupão não se faz de ânimo leve. É um statment: quem compra um roupão assume uma postura perante a vida.
Então pensei para comigo: “Pedrinho, estás a ficar velho! Comprar assim um roupão... Tem juízo! Porque é que não esperavas que os leitores do Trelogue te oferecessem um no Natal? Um tipo com a tua idade tem mais é que estar a fazer desportos radicais, não é a comprar roupões. Um skate? Porque é que não compraste antes um skate?”

Fiquei a pensar naquilo... Caramba, havia verdade nessas palavras! O que é que eu estava a fazer da minha vida?
Então fui comprar um skate!! Um lindo skate!!

Agora sou um roupão radical...


Nota: tenho o pressentimento de que vocês em breve irão ouvir falar outra vez do roupão e do skate.

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Domingo, Novembro 19, 2006

Momentos #1

David Wasklewicz, "N Train window, Queens"
Sentado no estofo de napa, deixava-se embalar - a cabeça encostada à janela do comboio.
O vidro era sujo e a carruagem fria mas não tão frios ou sujos como a paisagem dos subúrbios que ele olhava deprimido.
Levantou a cabeça devagar e descobriu um miúdo a olhar para si através dos espaços brancos dos assentos.
Surpreendido na sua tristeza, tentou um sorriso e fez uma careta.
O miúdo não achou graça.

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Terça-feira, Novembro 14, 2006

Ingres, "Napoleão na sua coroação", 1806
É oficial, meus amigos, sou poeta!
Não daqueles que escrevem em verso
como quem faz as palavras-cruzadas
(quebra-cabeças sem Arte...).
Não! Sou poeta com intenções!
E hei-de amar a poesia sobre todas as coisas
— mais ainda do que amo a minha barriga —
e escrever muito, pesando as palavras com sabedoria.

Ser poeta é fixe!

Ser poeta é respeitável!

(Ser poeta é fácil:
Basta
Escrever
Assim
E mostrar à-vontade com as p-a-l-a-v-r-a-s
Como se fôssemos donos delas.)

Quando um poeta anda na rua
Ele poema
E quando poema poeta!

Por isso, senhoras,
Coroei-me Pedro Poeta
com os louros importantes
de um deus grego qualquer
— Napoleão da poesia.
E quem não concordar que se lixe!

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Quinta-feira, Novembro 09, 2006

Poema minimalista #7

Desta vez deixo-vos um poema erótico. Chama-se "A montagem"...


A [porca] para tusa
Ali catre... Mar tela!
iiiiiiii :::))) prego iça...

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Terça-feira, Novembro 07, 2006

Poema minimalista #6

Adoro viajar de comboio!
No comboio fazem-se milhões de coisas, chupa-se a paisagem e até se viaja.
Se eu fosse puto queria conduzir comboios...
Só que eu nunca conheci um puto que quisesse conduzir comboios...
Maquinista é o que os adultos queriam ter querido ser quando podiam querer ser coisas. Dor de cotovelo...
Com os comboios e os sonhos escrevi mais um poema minimalista:

São os maquinistas que levam os astronautas e os polícias até aos sítios
(as bailarinas vão de ballet...).

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Sexta-feira, Novembro 03, 2006

Poema minimalista #5

Vim passar o fim-de-semana à capital. 5 minutos depois de ter descido do comboio já estava a fazer poesia.
Com uma componente gráfica, sobre Lisboa, a minha cidade:

Lisboa...
muita gente
muita pressa
miutas giras!

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Quinta-feira, Novembro 02, 2006

Um domingo recente...

Patrice Stanley, "Mystic Sea"

Tentar fazer do Domingo um dia feliz é, para mim, uma luta antiga. Hoje foi uma boa aproximação...

Vá-se lá saber porquê, os portugueses, que durante o Verão vão viver para a praia, agora fogem dela. Mesmo nos domingos de Sol...
Tanto melhor para quem dispensa companhia!
Sozinho de carro, por caminhos improváveis, descubro uma nova praia (e sinto-me como um marinheiro dos antigos ao topar com uma ilha!). Não fui, no entanto, o primeiro a pisar aquela areia: havia pegadas e, olhando com mais atenção, descobriam-se corpos de nativos estendidos nus... Serão canibais?
Entre o meu corpo e a areia pus uma toalha que já devia ter ido para lavar e abro um livro de contos do José Eduardo Agualusa.
Tiro os óculos para que o sal que a água traz invisível, dissolvido em humidade, não nasça no vidro das lentes numa estratégia discreta para me impedir de ver o Mar. Estranho pudor o das ondas que não querem que os míopes as vejam...
Um cão pequeno e engraçado (este, apesar de pequeno, era absolutamente irresistível!) vem ter comigo e deixa-me uma bola na toalha. Queria brincadeira e escolheu-me a mim!
Claro que a honra se dilui se pensarmos que não havia muito mais gente na praia...
[um pescador, de joelhos, compunha o anzol como se rezasse]
Está tudo tão bonito que penso que se calhar me devia ir embora. Penso também que um dia destes tenho de conhecer o Agualusa... Mas ir-me embora, assim? Com cão ainda a brincar na areia... sinto que o filme ainda não acabou.
O bicho voltou. Não queria festas: apenas me dava a bola para que, de uma maneira cujo mecanismo não sei se ele consegue perceber, ela fosse para muito longe e ele, incansável, pudesse trazer-ma... Ciente do seu charme irresistível sabia que estaríamos naquilo o tempo que ele quisesse.
A dona, uma velha hippie, sentada na areia esperava que o cão brincasse tudo.

Suzy não tem muito menos de sessenta anos.
Vestia-se de vermelho - era a sua “power colour”... - e tinha na cabeça um chapéu às riscas, com as “power colours” de muita gente. Tinha também uns incríveis óculos de plástico púrpura.
Podia ser portuguesa mas é irlandesa e vive no Algarve há vinte anos.
Fomos conversando enquanto eu brincava com o cão dela.
Falámos sobre o mar e ela explicou-me coisas que sabia sobre as ondas e o vento.
Vinha ali todos os dias. Está doente há dezoito anos mas desde que começara uma cura no Mar estava muito melhor. Dantes tomava muitas drogas mas agora só queria o Mar. Já nadara vinte minutos e ainda voltaria para a água. Eu disse-lhe que sim, cheio de frio...
Ela ria-se mostrando os dentes estragados. Continuou a sua conversa mística e tenho a certeza de que pôs a hipótese de me contar a verdade sobre o aparecimento da Vida por fecundação extra-terrestre mas deve ter achado que eu ainda não estava preparado...
Emprestou-me os óculos para eu olhar o céu através das lentes vermelhas. “Spacey!, isn’t it?”
Voltava para a água. Despediu-se com um aperto de mão e foi tomar banho nua.
Se isto não faz um domingo grande o que é que faz?



“Ateu? Tens muita coragem, rapaz...”, disse-me o velho Físico inglês, no terraço da sua casa sobre a baía catalã.
Eu pensava que acreditar devia fazer as pessoas felizes. Hoje sei que os verdadeiros felizes são os místicos.

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Segunda-feira, Outubro 30, 2006

Sangue e carne - V

V

O Viúvo mexia as pernas devagar mas gozava o prazer de estar fora da cama e, lentamente, sentia-se voltar à vida de todos os dias.
Sem qualquer pudor, as pessoas por quem os dois homens passavam olhavam para a ligadura que ele tinha na cabeça e chegou mesmo a ouvir um comentário à habilidade da bengalada.
Depois de andarem três minutos na estrada que atravessava a aldeia, acabaram-se as casas. O Padre cortou por um caminho de terra batida e o Viúvo comentou, surpreendido, que o seu companheiro conhecia a aldeia melhor do que ele.
Cem passos à frente, no cimo de uma ligeira elevação, estava um pequeno palheiro de xisto com telhado de uma água. O Viúvo sentiu o coração a bater com mais força.
Quando chegaram, o Padre deu duas pancadas na porta com o punho da bengala e o Viúvo notou, pela primeira vez, que este era coroado por uma espécie de brasão, gravado num engaste de prata já um pouco gasto pelas mãos. Conhecia o símbolo da gravação mas não se conseguia lembrar de onde... A voz dura do Cego interrompeu-lhe os pensamentos:
— Entra!
O Padre teve de fazer força para empurrar a porta sem fechadura que, perra, abriu rangendo para um interior completamente escuro — as paredes não tinham janelas. Fez sinal ao Viúvo para esperar e entrou. Este obedeceu mas deu um passo em frente para espreitar o interior.
Os olhos demoraram a habituar-se à escuridão. No entanto, para além da porta aberta, havia uma outra, pequena, fonte de luz: ao canto, sobre o chão de xisto e contra uma parede negra de fumo, ardia um punhado de brasas. Eram elas que iluminavam a vermelho o rosto do Cego.
O velho homem estava sentado numa cadeira baixa de verga que, juntamente com uma mesa tosca, era a única peça de mobiliário. Mais do que a pobreza extrema, o que impressionou o Viúvo foi não encontrar ali o mais pequeno elemento de conforto.
— És tu, Padre?
— Sou eu, Jorge. E trago uma pessoa comigo...
O cego levantou-se para se aproximar. Depois, ajoelhou-se e estendeu as mãos. O Padre ofereceu-lhe as suas e o Cego beijou-lhas respeitosamente.
— Nunca me vens visitar...
— Ora... tu não gostas de visitas...
O Viúvo observava os dois homens com enorme interesse.
O Cego era uma figura extraordinária. Velho, magro, alto e seco... Os olhos brancos mexiam-se como se conseguissem ver e parecia incapaz de um sorriso. Dir-se-ia, no entanto, ter perfeito conhecimento de tudo o que se estava a passar à sua volta e, mais importante ainda, perfeito domínio sobre o que o rodeava — ainda fosse incompreensível a forma como o podia fazer.
O rosto do Padre era mais humano sem, no entanto, parecer admitir uma aproximação fácil. Em particular, as sobrancelhas expressivas davam a sensação de ser uma pessoa mais culta e inteligente do que desejava mostrar, como se essas qualidades se devessem manter ocultas num sacerdote.
Em ambos transparecia uma superioridade altiva, elitista certamente, que caracteriza as pessoas que se sabem diferentes dos comuns por razões do intelecto e que, com um certo desprezo, assumem essa diferença.
Era estranho o tom em que conversavam pois havia simultaneamente profundo respeito e intimidade.
— Sabes quem é que vem comigo?
— Imagino... Diz-lhe que entre e sentem-se aí — respondeu, fazendo um gesto vago.
O Viúvo entrou sem dizer nada.
Havia, efectivamente, mais uma cadeira de verga e um pequeno banco que não foram fáceis de descobrir naquela escuridão e que deram assentos para os recém-chegados.
Já sentado, o Viúvo continuou a inspecção sem, no entanto, se atrever a mexer a cabeça. Atrás da porta encontrou uma ratoeira armada e, no canto oposto, uma espécie de colchão de palha. Em cima da mesa, estava um cotovelo de sobreiro que devia ser usado como prato e uma bilha de barro para água com um amolgado púcaro de alumínio voltado sobre o gargalo. Encostada à mesa estava a bengala do Cego e, para sua surpresa, descobriu-lhe o mesmo engaste de prata que o Padre tinha no punho da sua.
Era desconcertante encontrar o metal nobre naquela casa que cultivava a pobreza.
O Viúvo olhou o engaste com curiosidade. Parecia mais tratar-se de um símbolo pagão do que cristão, talvez de inspiração celta ou hindu. Assemelhava-se ao símbolo matemático de infinito, uma espécie de uma curva de Moebius. Era perturbador o facto de ele o conhecer tão bem essa imagem e de, no entanto, não conseguir lembrar-se de onde... Parecia óbvio tratar-se do símbolo de uma ordem religiosa a que os dois homens pertenciam o que, a ser verdade, explicava a familiaridade entre ambos.
Jorge voltou os olhos brancos para o Viúvo e falou-lhe:
— O Padre acha que não mataste a tua mulher...
“O que é que se responde a isto?”, pensou o Viúvo.
— E porque é que achas que alguém a matou? — perguntou, retribuindo o tratamento por “tu”.
— Porque... — começou o Cego a responder lentamente. Mas pela primeira vez deixara cair o seu tom seguro e mostrava-se pouco à-vontade. Hesitava... Voltou-se para o Padre, como se lhe pedisse opinião sobre o que devia fazer, e ele socorreu-o:
— A tua mulher não era uma pessoa qualquer. Não podia morrer como as pessoas normais. Ou se matou ou a mataram.
O Viúvo levantou-se.
— O que é que estão para aí a dizer?
— É uma longa história que não temos autorização para contar — disse o Padre.
A entrevista não durou muito mais. Como os dois homens não adiantassem mais nenhuma explicação, o Viúvo, que não sabia o que pensar de tudo aquilo, resolveu sair e esperar lá fora. O Padre não demorou a ir ter com ele.
Enquanto desciam o caminho de terra batida, de volta para a aldeia, cruzaram-se com dois camponeses, um homem e uma mulher, que se dirigiam para a casa de Jorge, levando uma galinha com eles. “Estranhas bruxarias aquelas”, pensou o Viúvo...
O Padre, que sabia o que lhe ia na cabeça, disse:
— Tens de confiar em nós e precisamos da tua ajuda. Hoje já se está a fazer tarde para irmos a algum lado mas amanhã gostava de te levar a conhecer uma pessoa.
— Quem?
— Um médico que conheci no Exército e que era obcecado pela Morte...



(agora é que já não tenho mais nada escrito...)


imagem de http://www.fotosearch.com/IMP164/ingdmyfs0666/

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Sábado, Outubro 28, 2006

Poema minimalista #4


Em Lagos comemoram-se os Descobrimentos. Durante quatro dias a cidade fica irreconhecível, palco de recriações históricas pouco fiáveis mas divertidas. Este ano tive mesmo direito a fatiota e andei por aí aos saltos.
Também há barraquinhas a vender coisas, principalmente comida, vinho e cerveja. E se bem que a primeira seja perfeitamente dispensável, o segundo e a terceira são a alma de qualquer festa popular.
À conta deles compus uma poesia minimalista a que estou indeciso entre chamar "Poema meta-dionisíco" ou "Cocktail". Reza assim:

O vinho + cerveja fazem mal à cabeça.

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Sexta-feira, Outubro 27, 2006

De volta à Rotunda


A minha amiga Fraude já tem o seu próprio blog, mas nem por isso negligencia o Trelogue que continua a animar com os seus divertidos e espirituosos comentários.
Essa segunda dimensão dos blogs (que são os comentários) encerra por vezes algumas pequenas pérolas. Para que não ficasse tão escondido, quis dar honras de post a um comentário recente da Fraude a propósito das rotundas de Lagos.

"Eu gosto muito de rotundas e até acho que devíamos ter muitas mais.
São óptimas para os indecisos: quando não sabem muito bem para onde devem virar, vão dando umas voltinhas até acertarem com o caminho; são a delícia dos exibicionistas: puxam por uma segunda, prego a fundo e descrevem meia rotunda em duas rodas antes de se enfiarem por uma qualquer rua com os pneus a guinchar; são boas para os Físicos: vão experimentando várias velocidades e testando o nível de aderência à estrada; são maravilhosas para os matemáticos:- Desculpe, podia-me dizer como vou para o centro da cidade? - Claro! vai em frente e faz 3/4 da primeira rotunda que encontrar , depois, na segunda rotunda faz 1/2 da rotunda...; são excelentes para os escultores e outros artistas: exemplo disso são quase todas as rotundas pois invariavelmente são presenteadas com obras de arte suspeitas, mas muito caras.
Enfim! Uma rotunda dá jeito a muita gente. AH, e já agora também ajudam muito ao trânsito."

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Domingo, Outubro 22, 2006

Só a mim #2 — ainda o Tristão e a Isolda

Tristan and Isolde, Edmond Blair Leighton (1902)
À conta do "Tristão e Isolda" de Wagner fiquei uma vez a falar sozinho...
Há uns anos, num jantar de aniversário de uma amiga, conheci um tocador de cravo. Era um tipo original (só podia...) que estudava o instrumento num país estrangeiro.
Eu tinha comprado uns discos de Bach e, quando apanhei o desgraçado, sentei-o à minha frente e fiz-lhe todo o tipo de perguntas sobre a fuga e o contraponto.
Pouco depois, na mesa ao nosso lado, sentaram-se três alemãs que rapidamente distraíram o meu interlocutor. Ele falava a língua, seguia-lhes a conversa e percebia-se que estava doidão para começar a falar com elas!
Devagarinho começou a meter alemão na nossa conversa (disfarçado de termos técnicos...) e a dada altura, a meio de uma explicação sobre o cravo bem-temperado, vira-se para elas falando alto e, tanto quanto sei, sem vir a propósito de coisa nenhuma:
— Tristaaaaaan und Isoldeeeee!
E continua, perante a minha estupefacção:
— Richaaard Waaaaagneeerrr...
A seguir, para meu desconcerto, continuou a falar comigo 100% em alemão (eu não sei duas palavras!) e finalmente com as moças. Não demorou muito a sentar-se à mesa delas e nunca mais o vi...

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Citações literárias #3 — Tristão e Isolda

Paolo Ucello, S.Jorge e o dragão, cerca de 1460

Com tantas “rotundas” poder-se-ia pensar que Lagos é uma grande cidade... (aliás, é essa ilusão de óptica que as faz construir). Um indicador mais transparente da dimensão desta cidade é só ter uma livraria digna desse nome.
Como o espaço não é muito grande, a maior parte dos livros não está nos expositores mas sim nas prateleiras. Temos de comprar o livro pela lombada em vez da capa! E acabamos assim por comprar livros mais improváveis e não necessariamente os best-sellers que as editoras nos impigem...
Foi à conta disso que saí de lá, a semana passada, com o Tristão e Isolda.
Antes de ser uma ópera de Wagner, Tristão e Isolda é uma deliciosa história de amor do séc. XII. Um autêntico romance de cavalaria, cheio de referências que perduram na nossa imaginação como um rei com orelhas de cavalo, dragões, florestas de gigantes, anões maus que a lêem as estrelas, poções e magias diversas...

Escolhi-vos uma passagem que não representa bem o livro mas que tem uma certa poesia (com que Tristão pretende simular loucura):
“Acabo de desembarcar de um navio de mercadores. Também vos queria dizer quem sou e o que peço: a minha mãe era uma baleia que vivia no mar como uma sereia. Não sei onde nasci, mas sei quem me alimentou: um grande tigre aleitava-me numa gruta onde me encontrara. Estava estendido numa larga pedra e ela dava-me de mamar. Também tenho uma irmã muito bela; dar-vo-la-ei, se quiseres, em troca de Isolda, que amo apaixonadamente. Façamos este negócio!”

Nota: por causa deste post fiquei a saber que já estreou nos E.U.A. um blockbuster baseado no romance. Por isso, não vai tardar que o livro esteja em todas as livrarias, nos expositores dos best-sellers, com dois actores americanos a beijarem-se na capa...

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Quarta-feira, Outubro 18, 2006

Poema minimalista #3


A Torneira

piiiim...
piiiim...
gaaapiiiim...
pim-gapim-ga
pin gamor!

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Domingo, Outubro 15, 2006

Sangue e carne - IV


IV

O médico jovem foi absolutamente intransigente em relação à saída do Viúvo naquela tarde, mas já não o conseguiu segurar no dia seguinte.
O Padre fez questão de o conduzir, de automóvel, à aldeia da falecida mulher e pelo caminho ficou a saber mais sobre a vida daquele homem:
— Não sou do campo, não sou da cidade, não sou de lado nenhum... Isto nada me diz. Nasci na aldeia mas os meus pais levaram-me para Lisboa com cinco anos. Tarde demais para me fazer lisboeta, mas suficientemente cedo para nada ter aprendido sobre a Natureza. Nunca mais voltei à aldeia. Nem sei se a casa ainda existe. A minha mulher era daqui de baixo e vínhamos cá de vez em quando, mas nunca ficávamos mais do que três ou quatro dias: era o suficiente para visitar a família e limpar a casa. Agora que ela morreu vou vender isto e não volto cá.
O Padre ouvia-o com atenção, sem tirar os olhos da estrada. Repreendeu-o, abanando a cabeça negativamente:
— Isso não tem jeito nenhum. Não te dão nada pela casa... Mais vale ficares com ela e vires cá de vez em quando. Não tens cá ninguém? A família da tua mulher?
— Não, já ninguém mora cá ou já morreram todos. Isto não me diz nada... Já para não dizer que me dão cacetadas na cabeça... — disse a rir.
Era talvez a primeira vez que se ria desde há vários dias e o Padre notou-o, satisfeito.
Saíram da estrada principal num desvio que indicava as Termas e dez minutos depois estavam na aldeia.
A chegada do carro do Padre foi notada por todos aqueles que fazem do largo o centro do Mundo e os poucos que não estavam ali também não demoraram muito a saber quem estava de volta.
Apesar de não servir aquela paróquia o Padre era, naturalmente, conhecido ali. A sua presença ao lado do Viúvo foi lida como um selo de boa conduta moral, depois do comportamento duvidoso do dia do funeral.
— O que é que queres fazer? — perguntou o Padre.
— Quero passar pelo meu carro, que está ali estacionado, porque tenho lá a mala da roupa. Se não se importar de esperar um pouco, até ia a casa lavar-me melhor e trocar-me. Depois podemos ir procurar esse Jorge. Ele mora longe?
— Não, vai-se a pé.
Fizeram como se disse.
O carro do Viúvo estava no Largo porque as ruas da aldeia eram estreitas demais para permitirem estacionamentos. Ele tinha a chave no bolso na altura do ‘acidente’ e o hospital tinha-lha guardado e devolvido.
O Padre tirou a mala do porta-bagagens e insistiu em ser ele a levá-la. Foi a primeira vez que o Viúvo notou que a bengala de que o outro se fazia sempre acompanhar não servia para compensar qualquer debilidade física. Pelo contrário, e apesar de já ter passado a meia-idade, percebia-se que a batina escondia um corpo bastante vigoroso.

Foi preciso puxar a porta com força ao mesmo tempo que se rodava a chave para conseguir convencer a fechadura. O Viúvo entrou à frente na velha casa e acendeu as luzes para encontrar o caminho da janela que abriu de par-em-par. Quando o Sol iluminou a sala, o Padre, que pouco tinha passado da porta, pousou a mala, esticou a mão para o interruptor e desligou a luz artificial.
— Entre, Padre. Sente-se — convidou o Viúvo — Não tenho nada para lhe oferecer mas prometo que não demoro.
— Está à vontade.
O Padre afundou-se num sofá que tinha as molas partidas mas levantou-se logo a seguir para ligar uma velha televisão a preto-e-branco. Como não acertou com a posição da antena, acabou por desistir e desligou o aparelho.
Olhou à volta. A sala era simples, e mesmo sem cuidados de decoração, estava arranjada de forma agradável.
Aproximou-se de uma cristaleira para lhe examinar as prateleiras. À altura dos olhos estava uma dúzia de livros encadernados. Vistas as lombadas o Padre suspirou: só franceses, russos e neo-realistas. Noutra prateleira estavam bibelôs de porcelana de uma provável colecção em fascículos. Por todo o lado estavam objectos da falecida mulher, incluindo uma fotografia dela que o Padre olhou longamente pensando como iria ser doloroso para o Viúvo conviver com aquelas memórias.
A inspecção não durou muito mais. O Viúvo apareceu à porta e parecia outra pessoa. Tinha feito a barba e trazia uma roupa mais ligeira.
Atravessou a sala depressa, abriu a porta da rua e perguntou ao Padre, que ainda não se tinha mexido:
— Vamos?


foto retirada de: http://www.blogs4biz.info/

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Sábado, Outubro 14, 2006

Catedral de Salamanca. Agosto de 2005

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Sexta-feira, Outubro 13, 2006

Sangue e carne - III


III

Durante a noite, o homem da respiração difícil morreu.
De manhã, dois enfermeiros vieram buscá-lo numa maca que, ao sair do quarto, riscou a parede branca.
Nos corredores, poucos palmos acima do chão, uma mancha contínua feita de traços irregulares é a assinatura de todas as máquinas metálicas que deslizam pelo hospital. A morte daquele homem ficaria, assim, gravada no quarto em que morrera.

Era a terceira vez que acontecia ao Viúvo partilhar a noite com um defunto.
A primeira fora em criança. Teria cinco ou seis anos quando se velou uma tia na sua casa. Lembra-se de lhe pegarem ao colo para lhe mostrarem a morta dentro do caixão e de o terem ido pôr à cama. Disseram-lhe para dormir, mas o sono – que tem as suas próprias vontades – não obedeceu à recomendação.
A meio da noite, a criança levantou-se e desceu as escadas até ao quarto do caixão, descobrindo que apenas uma lamparina de azeite velava a morta. Trepou a uma cadeira que arrastou para o lado do caixão e ficou dois ou três minutos a olhar o corpo da tia.
O ar pesado cheirou-lhe mal e foi abrir uma janela. A súbita corrente de ar fresco apagou a chama, deixando o quarto na escuridão. Talvez por achar que ao apagar a chama contraíra a obrigação de acabar o velório, a criança procurou com as mãos a cadeira, sentou-se para passar ali a noite. Acabou por adormecer e só acordou de manhã com o grito de surpresa que a mãe deu ao encontra-lo ali, a dormir com a cabeça encostada à madeira do caixão...
A segunda vez que acordara ao lado de um corpo sem vida fora há quatro dias. Sem nada que o fizesse prever, a sua mulher morrera durante a noite na cama em que sempre dormiam. A autópsia fora inconclusiva.
Agora estava farto! Farto do hospital, do sofrimento, das perdas e das dúvidas existenciais — e nestas, para que a existência se torne suportável, só se deve pensar de vez em quando...

O padre veio mais cedo do que o costume para acompanhar o corpo e confortar a família. Assim que despachou as suas obrigações eclesiásticas, procurou o Viúvo. Tal como na véspera, sentou-se sem pedir autorização, encostando a bengala curta à cama do doente. Foi este quem começou a conversa:
— Vou-me embora hoje, Padre.
— Só te dão alta para a semana...
— Não posso continuar aqui. Dou em maluco... Quantos homens é que já viu morrer?
O religioso encolheu os ombros; não fazia essa contabilidade. Desde que estava com doentes era rara a semana em que não fazia dois ou três funerais.
— Foram tantos que já deve ter aprendido muito sobre a Morte... Mais do que esses médicos que só olham para as temperaturas, raios X e gargantas...
Fez-se um curto silêncio que o Padre interrompeu:
— Fizeste-me lembrar um médico que conheci quando fui capelão do Exército. Era um homem que tinha estado na Guerra e que depois foi para a Goa. Estava sempre no meio da confusão e das desgraças. Peste, tremores-de-terra, guerras... Ele era obcecado pela Morte. Dizia que não havia ninguém que tivesse visto morrer mais gente do que ele. Gabava-se de conseguir saber muito antes quando é que alguém ia morrer...
— Se calhar era ele quem os matava...
— Oh, não! Deus lhe perdoe! Era um homem muito bom que fazia tudo o que podia para os salvar. Mas, quando é chegada a hora, não há medicina que nos valha... e ele, cada vez mais, conseguia saber quando é que é a Morte estava a chegar. Pelo menos era o que ele dizia...
— Gostava de falar com esse homem. Ainda é vivo?
—Se fosse vivo teria mais de cem anos... — disse o Padre com o ar pensativo de quem faz contas de cabeça — Sabes quem é que o conhecia bem? O teu “amigo” Jorge, o cego.
— Então parece que vou ter mesmo de falar com esse Jorge! Por isso e por outras coisas... E hoje era bom dia...
— Queres confessar-te?
— Padre, eu não matei a minha mulher e eu não acredito em Deus!


(Continua)
Créditos da foto: Renato Spencer em http://www.jcimagem.com.br

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Segunda-feira, Outubro 09, 2006

Sangue e carne - II

Fotografia do Great Ormond Street Hospital
II
Um sono de fraqueza prolongou-lhe o desmaio.
Passaram-se algumas horas até, devagar, recobrar a totalidade dos sentidos e, muito lentamente, tomar consciência do seu estado. Estava deitado num quarto de hospital; tinham-lhe tirado as roupas e vestido um pijama. Ao apalpar a cara inchada, encontrou um penso na testa, envolto numa ligadura que lhe dava a volta ao crânio. Doíam-lhe a cabeça, as costas e todos os músculos do corpo.
O quarto tinha outras duas camas mas apenas uma estava ocupada. Com esforço, apoiou-se nos cotovelos e conseguiu ver o corpo de um velho, deitado de costas, com a cabeça ligeiramente inclinada para trás. Os olhos fechados e a boca aberta conferiam-lhe tamanha expressão de abandono que era quase inesperado descobrir que respirava — uma respiração difícil, que se reconhecia num silvo grave, quase moribundo, que não tinha nada de bom.
Olhando à volta, o Viúvo não encontrou nada que não fosse branco e tudo lhe parecia cheirar a éter, como se fosse para disfarçar um cheiro mais entranhado que existe nos hospitais e que se tenta ignorar.
Quis chamar alguém, mas resolveu esperar e deixou-se cair para trás. Assim deitado reparou que, na parede da cabeceira, estava pendurado um crucifixo.

Um médico jovem visitou-o algum tempo depois.
Sorria quando se aproximou da cama e tranquilizou-o quanto ao seu estado de saúde. Aliás, dar-lhe-ia alta em breve pois o traumatismo fora ligeiro. Apenas a perda de sentidos havia sido mais prolongada do que o esperado pelo que continuaria em observação, pelo menos até chegarem os resultado dos exames.
O Viúvo não protestou: inconscientemente não se importava de atrasar o regresso a casa. E nem sequer achava que estivesse pior ali do que noutro sítio qualquer.
Deitado na cama, só conseguia ver o céu pela janela. Era final de tarde e nuvens claras tapavam qualquer azul que pudesse existir por trás.

Fechou os olhos e sentiu-se dormitar. Mas um som seco, repetitivo e monótono despertou-o completamente e de forma instantânea: era o som de uma bengala.
O eco da madeira a picar o chão ressoava nos corredores despidos do hospital e, rapidamente, ia-se tornando mais forte.
O Viúvo, com as mãos a tremer, procurou o botão que chamava a enfermeira e premiu-o repetidamente. Por alguns – poucos – segundos a bengala deteve-se, como se hesitasse. Mas a enfermeira não vinha e a bengala retomou a caminhada.
O som chegou à porta do quarto e o Viúvo preparou-se para receber o seu agressor. Para seu infinito alívio, quem apareceu não foi o Cego. O homem que entrou no quarto era o capelão do hospital que vinha dar as boas-noites e algum conforto espiritual aos doentes e que, por mancar de uma perna, se fazia apoiar numa bengala curta.
O Viúvo não disfarçou o alívio de ver o padre e foi talvez por isso – ou, talvez, por ter tomado conhecimento da estranha história e ter sentido humana curiosidade – que o religioso não esperou pelo convite, se abeirou da cama, e se sentou num banco que arrastou para aí.
— Então, como se sente? — perguntou.
O Viúvo encolheu os ombros.
— Já sei que perdeu a sua esposa...
O Viúvo não tinha vontade de falar, mas como o padre não adiantasse a conversa, suspenso nas suas palavras, acabou por dizer:
— Foi ontem o funeral.
— Pois... ela era de cá?
— Daqui perto. D’atrás das Termas.
— Pois... eu sei. — confessou, distraído.
“Se sabes porque é que perguntaste?”, pensou o Viúvo, intolerante para com as figuras que se usam para iniciar os diálogos entre pessoas que não se conhecem. O padre continuou:
— Já sei que foi o Jorge quem lhe partiu a cabeça...
— Conhece-o?! — perguntou, num tom de surpresa, quase de alarme, que fazia do padre cúmplice do crime.
— É um pobre homem. Passou a noite na esquadra à conta do assunto...
— Foi? Pois eu passei-a aqui!
O Padre não respondeu. Depois, hesitante, acabou por dizer:
— Ele acha que foi você quem a matou.


(Não sei se continua... aceitam-se sugestões...)

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Quinta-feira, Setembro 28, 2006

Sangue e carne

O Venerável Jorge do Nome da Rosa

I
– Família de sangue não come carne!
Às palavras, o homem suspendeu o gesto. Mais do que pela censura que lhe era dirigida, o desconforto que sentiu nasceu da surpresa que se experimenta quando se revela próxima uma presença de que não se suspeitava. E as palavras ríspidas haviam sido pronunciadas quase nas suas costas, por alguém que se aproximara silencioso, e foram sentidas como se fossem aço frio.
A tradição sustenta que em dia de funeral a família próxima não prove carne, e a presença do Viúvo no café justificava a recriminação arrogante que o cioso católico lhe fazia, e que provavelmente passara por outras cabeças que, apenas, não se atreveram a pô-la em voz alta.
Em rigor, a observação era incorrecta porque não era carne o que o homem levava à boca – era uma cerveja.
“Família de sangue não come carne!” e o homem suspendeu o gesto: a garrafa ficou a caminho dos lábios. Devagar, sem se voltar, com o luto estampado na face, pousou a garrafa no balcão e só então rodou lentamente o corpo para encarar o seu zeloso interlocutor. Quando o encontrou, estremeceu: era um velho alto, de olhos brancos.
A cegueira justificava o engano e constrangeu o ofendido que já preparava uma resposta agressiva. Da brandura e da natureza explicativa, quase envergonhada, da resposta que deu, arrependeu-se imediatamente:
– É uma cerveja...
O cego que, inclinado para a frente, punha bastante do seu peso na bengala, reagiu com uma agilidade insuspeita dobrando-se para trás e puxando ao cimo o pau:
– Penitência! – gritou furioso.
Por instinto, o Viúvo levantou as mãos para proteger a cabeça de um golpe que acabou por não ser desferido e, perturbado, saiu sem dizer mais nada.

Cá fora era uma manhã quente de Sol.
Quase bastou experimentar a luz para se esvaziar de importância o episódio que acabara de viver e que noutra situação seria tão desagradável. No fundo, a dor da perda recente e os rituais fúnebres saturavam-lhe demasiado as emoções para permitir distracções ao luto.
A beleza do dia, em contraste com o funesto motivo da sua presença ali, causavam uma impressão que não se traduzia em nenhum pensamento concreto, mas numa sensação indefinível de que a Natureza é indiferente às nossas misérias. Que outra explicação existe para que se morra em dias de Sol?...
O largo, mesmo despido de árvores – e, portanto, da dignidade que elas conferem –, prometia uma dimensão que a aldeia não tinha nem nunca tivera.
Os únicos sinais de modernidade que se percebiam num olhar rápido eram a bomba de gasolina e alguma publicidade. E apenas um automóvel, conduzido por um homem de boina, circulava, velho e lento.
Agora que tudo tinha acabado, o Viúvo não sabia para onde ir.

De repente, uma pancada forte vibrou-lhe nas costas. Virou-se, surpreso, curvado de dor, e ainda foi a tempo de ver o Cego levantar outra vez a bengala e desfechar-lhe na cabeça o golpe que lhe tirou os sentidos.

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Citações literárias #2

Tenho um amigo e colega a quem nunca conheci namorada, apesar de ser mais boa pessoa do que eu...
Poder-se-ia dar o caso de ser gay (o que ele nega veementemente enquanto bate com o pé no chão!) mas, na realidade, penso poder testemunhar pela sua virilidade porque o mal dele é ser um romântico inveterado.
Por vezes, quando passa uma rapariga na rua, ele apaixona-se, suspira e murmura com ar cândido: “amanhã às quatro!” — marcando casamento para o dia seguinte. Mas elas não têm aparecido e ele continua solteiro.
Eu, claro, dou-lhe conselhos sábios que invariavelmente iniciam longas discussões académicas (porque o pragmatismo e o romantismo só têm em comum o “tismo”...).
Na semana passada, fui encontrar no bonito “Livro de San Michele”, de Axel Munthe, uma citação que sustenta uma teoria que lhe tenho vendido.
Como bom amigo que sou, apressei-me na transcrição e, no dia seguinte, entregava-lhe discretamente o texto na sala de professores.
A citação, é demasiado machista para poder ser transcrita aqui. Posso apenas dizer que termina com um: “As mulheres, ainda que pareçam ignorá-lo, preferem muito mais obedecer do que ser obedecidas”.
O meu amigo, pegou no textinho, riu-se e enfiou-o no meio da acta que ia entregar nessa tarde ao Conselho Executivo. É preciso de contar mais??

Hoje fui chamado ao gabinete da senhora Presidente para me devolverem o papel: a caligrafia e os exercícios de Físico-Química do verso da folha não permitiam dúvidas sobre a identidade do autor. Neguei a propriedade de tal documento com ar ofendido, mas não sei se a convenci alguém...
A intenção era apenas gozar o prato do meu embaraço e sou obrigado a reconhecer que a senhora Presidente, pelo menos por força do cargo, está certamente mais habituada a ser obedecida do que a obedecer...

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O primeiro aniversário do Trelogue...

...foi comemorado na segunda-feira.
Não se pode dizer que esteja muito crescidinho (uma média modesta de um post por cada 4,1 dias...) mas pelo menos não envergonha o pai que ainda tem gozo alimentá-lo.

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Domingo, Setembro 24, 2006

Nova rubrica: Citações literárias#1

(Repare-se a tranquilidade com que trago o kitsch ao meu blog...)

Vamos inaugurar uma rubrica de citações literárias!
Enquanto leio, costumo assinalar com “post it” passagens que por qualquer motivo me interessaram. Vou partilhar algumas.

Para prolongar o prazer da leitura do D.Quixote, fiz incursões em outros terrenos.
Uma que me deu particular prazer foi o “Nem aqui, nem ali” de Bill Brison.
Brison, é um jornalista que tem escrito livros que, merecidamente, se tornaram populares. O mais famoso será o best-seller “Breve História de Quase Tudo”, que é dos melhores livros de divulgação científica que tenho lido (com o mérito de ter sido escrito por alguém sem formação científica!).
Acresce que ele tem um humor formidável (faz lembrar bastante o Nuno Markl...) e uma postura de anti-herói que tem tudo a ver comigo. Assim, as linhas que vêm a seguir podiam ter sido escritas por mim:

“Estava frio no exterior, mas não tão frio como eu esperava. Isto agradou-me porque eu estivera quase para comprar em Oslo um ridículo chapéus de pêlo, estilo russo — do género com abafa-orelhas —, por 400 coroas. Por muito que odeie destacar-me numa multidão, tenho esta terrível compulsão ocasional de fazer de mim mesmo fonte de diversão para o mundo, e estive muito próximo de estabelecer nove recorde com um chapéu russo.” P.30

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Quinta-feira, Setembro 21, 2006

O engenhoso fidalgo


O humorista brasileiro Millôr Fernandes dizia que em Ciência devíamos ler apenas as coisas mais recentes e em literatura as mais antigas.
Parece-me regra de boa lógica, e como de Ciência pouco leio, as minhas leituras têm sido essencialmente clássicas.

Vários livros esperam há muito por que eu lhes pegue.
Se eles se impacientam na espera, a culpa é minha: para alguns, há preguiça, para outros desinteresse, mas para a maior parte não há outra razão que não seja a assombrosa desproporção entre a quantidade da oferta e a minha finita disponibilidade.
O Júlio Verne, o Marco Pólo, o Fernão Lopes [o meu pai acrescentou este furtivamente...] ou o Camilo esperam — para mim desconhecidos. Espera o Velho Testamento, a Eneida, a Divina Comédia, o Paraíso Perdido. Estou agora a ganhar fôlego para o Ulisses, do James Joyce.
Quem já os conheça, não tenha pena da minha ignorância: pense no prazer que me está reservado na perda da Inocência.

Recentemente arrumei na estante um grande romance que quero muito dizer-vos que leiam assim que puderem: falo do D. Quixote de la Mancha!
Basicamente não me lembro do último livro que me deu tanto prazer ler!
O fama e o tamanho faziam-me reservado: livros assim costumam ser densos. Mas para minha surpresa é hilariante! Hilariante de mãos-à-barriga!
Só um conselho: como muitas vezes acontece nos romances, as primeiras páginas são difíceis e alguns parágrafos esconderam o seu pleno significado na linguagem erudita. Mas é só o princípio. Saltem-no sem remorsos se começarem a desanimar e verão que não se arrependem! Depois digam-me se não ficaram amigos do Quixote e do Pança!

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Terça-feira, Setembro 19, 2006

Hipopótamos


As porcelanas com os hipopótamos estiveram pela primeira vez em exposição. Foi na Sotheby's de Nova Iorque (embora para meu desgosto já depois do meu regresso para Portugal) e o evento teve alguma cobertura.
A Sarah fez uma palestra a falar da sua aventura e se eu tivesse ficado teria ainda conhecido - conhecido? que digo? jantado à mesa! — com o Nobel James Watson, o homem que descobriu, juntamente com Francis Crick, a forma da molécula do DNA.
Amanhã a Sarah vai dar uma entrevista à Rádio nacional do Canadá, às 18h00 cá do sítio e quem quiser pode ouvir em neste endereço, seleccionando "Sydney".
E aqui estão outras referências mediáticas.

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Tias afectadas

"Las Meninas" de Velasquez, 1656
Depois de um jantar de professores lembrei-me de que tenho uma alergia tremenda à pequena burguesia. Por isso compus um poema minimalista de cariz sociológico enquanto vinha para casa a belas horas da madrugada. Diz-se assim:

Poema Social
As tias têm problemas.

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Só a mim #1 — Aqui há gato!


Hoje o meu carro começou a miar.
Eu não ligo muito quando isso acontece (todos nós temos direito a miar de vez em quando!), mas como ele nunca mais se calava sai no sinal vermelho para espreitar.
Debaixo do carro materializou-se um gatinho (coisa mais linda, branco e preto, pequerrucho...) e já eu esticava a mão para o levar para casa quando ele desatou a fugir. E foi enfiar-se debaixo do carro que estava parado atrás de mim no sinal.
Expliquei à senhora que ela tinha um gato enfiado no carro. Quando a convenci que não era para os apanhados, ela abriu o capot e imediatamente ele saltou doido de lá de dentro e foi-se enfiar...
...no carro que estava parado atrás no sinal vermelho!
Foi a última vez que o vi e provavelmente ainda está a estas horas a enfiar-se por baixo dos carros que param nos sinais vermelhos daquela rua.
Quando voltei ao meu carro livre de gatos tinha ficado sem bateria... os gatos dão azar...

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Sexta-feira, Setembro 15, 2006

Recomeçar...


...foi essencialmente o tom das duas últimas semanas: as aulas começaram hoje em nova escola.

Acho que sou professor por puro egoísmo: onde mais é que eu podia falar horas a fio sem que me mandem calar e ainda ser pago para isso?
Acima de tudo divirto-me imenso!

Adoro a ansiedade do princípio do ano, principalmente a curiosidade sobre os alunos!
Primeira aula: encaixo um registo militarão e faço um discurso inflamado a prometer-lhes sucessos futuros e muito trabalho para o dorso. Filosofo sobre a Educação, enuncio valores fundamentais e conto histórias moralistas nascidas das mais profundas experiências da minha longa carreira...
Entro com tanta sabedoria e convicção que dir-se-ia que um novo Mundo vai nascer naquela sala!
Normalmente, não aguento a aula toda em abstenção de humor e começo a resvalar para terrenos mais ligeiros. O primeiro sinal é a utilização de vocabulário improvável (para incredulidade da assistência que não percebe bem se aquela coisa que eu disse e a que eles acharam graça era mesmo uma piada...).

Episódio do dia:
Turma de sétimo ano. Na ficha que distribuo aos alunos para ser preenchida com os dados pessoais pede-se a morada. Já avisado pela experiência de que as moradas costumam vir incompletas, peço a coisa feita como deve ser. Um aluno pergunta se é mesmo necessário escrever o número da porta e o andar...

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Domingo, Agosto 27, 2006

O rei vai nu?

Robert Ryman, "Twin", 1966
Um quadro em branco em exposição no MoMA...

Eu mereço...
20 dólares! Outra vez 20 dólares! 20 suados dólares é quanto se paga para visitar o MoMA
MoMA é o acrónimo de Museum of Modern Art e um dos mais celebrados museus da cidade (e cobra-se de uma exorbitância para se deixar visitar).
Mas eu mereço! Aliás, todos merecem! Quem vai ver arte moderna merece ser modernamente explorado... Abaixo a arte moderna!

É a segunda vez que trago aqui o tema pelo que acho que devo expor o meu problema com a Arte Moderna – ou melhor dizendo, com a Arte Contemporânea.
A questão é simples: eu gosto de Arte e queria perceber (já não digo aceitar...) o que é que leva um museu tão prestigiado como o MoMa a pendurar na parede uma tela em branco. E outra em preto – entre outras jóias da colecção.
Claro que o mal só pode ser meu, que de artista plástico não tenho nada, mas será que a compreensão da Arte Contemporânea me terá de estar para sempre vedada? A mim, que gosto de frequentar museus, folhear livros e até tolero muito razoavelmente a companhia de artistas?
Um quadro em branco? Só compreendo se for um “statement” ou uma obra histórica:
O grande Crominsky vai à janela da modesta água-furtada onde vive e, todo nu, grita para o povo que passa na rua e que estupefacto dirige o olhar para cima:
– L’art est morte!*
*em francês no original
Em seguida, atira-se da janela abraçado a uma tela em branco, que passa a ser considerada o seu último trabalho.
Se Crominsky tiver feito alguma coisa de jeito enquanto pegou nos pincéis, a tela em branco pode ocupar um lugar de destaque na parede de um prestigiado museu. Caso contrário, sinto que estão a gozar comigo e se eu tiver pago $20, então uma indignação revolve-me as entranhas...

Claro que obras menores podem estar em exposição: tudo bem olhar uns desenhos mais modestos de Picasso, uns esboços de Matisse ou uns rascunhos de Dali. Talvez o leigo reaja pensado que seria capaz de fazer melhor do que aquilo, mas há uma dimensão histórica nessas imagens. Já não penso o mesmo dos arabescos de um artista cujo nome, na nossa ignorância, nos é tão desconhecido quanto o do último Xá da Pérsia...

Admito que algumas peças, principalmente esculturas e instalações, têm imensa criatividade e que nos provocam ou nos mobilizam: os quadros em branco têm o mérito de nos fazer reflectir sobre a própria essência da Arte!
Reconheço também que o conhecimento do contexto histórico de uma criação ou a sua inserção numa corrente oferece uma leitura completamente diferente da peça.
Por exemplo, neste momento no MoMA podemos visitar uma exposição sobre o movimento Dada. Marcel Duchamp, ideólogo dos Dada, é o autor da Mona Lisa de bigodes ou do desarmante urinol que mostrámos (e ridicularizámos) em outros post recentes.
Estas obras estavam expostas e fiquei a saber como é que um urinol se transformou em obra de arte. A história conta-se depressa: Duchamp foi fundador de um grupo de artistas que tinha o interessante slogan “sem júri, sem prémio”. Todos os membros poderiam expor as suas obras sem estarem sujeitos ao crivo selectivo de um júri (que podia ter lá tipos como eu que mandariam tudo para trás...). O irreverente Duchamp, para testar a coisa enviou-lhes o urinol com o pseudónimo de R. Mutt e ficou à espera que a obra fosse rejeitada para bater com a porta.
Outra famosa obra de Duchamp, a roda de bicicleta no banco, foi feita, segundo o artista, por uma razão tão despretensiosa e razoável quanto o simples prazer que retirava em olhar para ela, da mesma forma que eu gosto de olhar para o meu “lava lamp”.
À luz destas explicações, qualquer o urinol faz sentido. Já para não dizer que se perdoa tudo a um tipo com sentido de humor. Só falta saber se ele se se levava a sério...
Marcel Duchamp, Bicycle Wheel
Um "Lava lamp"...

Podemos encontrar abordagens teóricas explicativas para toda e qualquer uma das peças que está em exibição naquele museu. Com todas essas atenuantes, não deixa de ser perturbador que toda essa produção precise de legendas...
Parece-me que essa arte ou tem apenas a intenção estética imediatista de pousar os olhos, excitar o cérebro e seguir em frente (e então vale o que vale e estamos aqui a perder tempo, dando importância a algo que não o tem) ou, se é para ser levada a sério, reclamo e grito o meu descontentamento por este afastamento da Arte em relação aos seus consumidores.
Calo-me se disserem que todos estão felizes e que só eu me incomodo. Nessa altura, infeliz por não compreender os quadros em branco, saio do MoMA e vou para um dos muitos templos que glorificam a minha arte conservadora e só pergunto se não vos perturba a certeza de que em qualquer quadro de Rembramdt houve mais tempo só a reflectir na composição da imagem do que em todos os estádios da criação das vossas peças.
Claro que cada coisas tem o seu tempo, que há muita beleza na simplicidade, que a vanguarda é, por definição, incompreendida. Talvez, mas apetece-me gritar que o Rei vai nu.

––--

Água na fervura:
Quero dizer que a visita ao MoMA justifica-se plenamente (ainda que o bilhete seja caro). O edifício é formidável e muitas das peças da colecção são perfeitas obras-primas.
Apenas me aborrece o elitismo da Arte Contemporânea que não se deixa compreender (prefiro uma Arte pedagógica...).
Vou fazer o trabalho de casa e aprender alguma coisa sobre essa nova Arte, mas até que isso aconteça o que aqui deixei foi a minha opinião.

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Quinta-feira, Agosto 24, 2006

Relativismos...


Terça-feira foi dia de voltar ao Metropolitan Museum of Art.
O “Met” é o Louvre cá do sítio e, acreditem, não lhe fica a dever muito: são salas e salas da melhor arte. Um portento!
Aliás, o património da cidade, a produção artística actual, a cultura de Cultura que se respira, dificilmente permitem contra-argumentar que Nova Iorque não seja a capital cultural do planeta – a Florença dos nossos dias, para citar um amigo.

À entrada do Met cobram-se 20 dólares (cerca de 16,5€) que me deixaram doente...
Nunca paguei tanto por um museu e a neura demorou a passar!
Na realidade, é preciso que se diga, o preço do bilhete é uma sugestão: a pessoa pode pagar mais ou menos, o que permite que ninguém deixe de visitar o museu por não ter dinheiro.

Depois de muitos metros quadrados em telas de génios da pintura, fiquei com o espírito atafulhado de arte mas com a barriga a dar horas. Fui procurar a cantina do museu, onde comi um mau hambúrguer e me afoguei numa coca-cola de 591mL!! Esta refeição, juntamente com um café, custou-me 15 dólares que paguei sem pestanejar.

Conclusão: custou-me pagar $20 para passar um dia inteiro a visitar um dos melhores museus do planeta – uma instituição que investe fortunas em conservação, restauro, aquisição e pesquisa em obras-de-arte – mas de boa vontade paguei quase o mesmo por uma porcaria de comida!
O ser humano é uma coisa estranha...

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Do digital ao analógico


Dos muitos encantos que a Sarah emanou e que eu inspirei alegremente até me contorcer de paixão, houve um particularmente que me fez cair os queixos, deixando-me a boca aberta de incredulidade: a Sarah é o ser humano que mais rápido martela um teclado! Usa os dedos todos e nem sequer olha por onde anda. É um assombro...
(nos E.U.A. é prática comum ensinar-se essas coisas às crianças na escola, e nessas pequenas coisas se vai fazendo a diferença...).

Claro que também quis aprender e saquei um software da net para praticar. Desde então tenho feito os trabalhos de casa e já me vou desenrascando...
Podem fazer o download do programa em:
http://www.kiranreddys.com/download/download.html
A aprendizagem é lenta mas conseguir escrever com os dedos todos é uma sensação bestial: sinto-me como o Jerry Lee Lewis a tocar piano...

Bom, mas chegou a altura de andar para a frente (aliás, neste caso para trás...) e ontem comprei um livro de caligrafia. Vou aprender a escrever, literalmente, à moda antiga!
Se eu fizer um bom trabalho depois ponho aqui...

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Quarta-feira, Agosto 23, 2006

Bigodes

A Mona Lisa de bigodes
Um "ready made with assistance" de Duchamp, 1919

I
Nas cidades, já se sabe, para o bem e para o mal, as ruas são anónimas.
Nas ruas de Nova Iorque tudo dura um segundo.
A mole de gente flui à nossa volta e os nossos olhos, ainda desabituados (que o sejam sempre!), pousam-se num rosto para o abandonarem um segundo depois – ávidos do rosto seguinte, da sua cor, de um gesto ou, simplesmente, de uma tatuagem. Impossível controlar essa avidez que se satisfaz num segundo para voltar imediatamente insatisfeita. E assim durante horas...
Não nos espantamos com nada e tudo é livre na metrópole.
A pobreza e riqueza extremas cruzam-se descomplexadas.
O homem estranho? Durou um segundo... O belo e o feio também.
E nisto tudo harmonia.

II
Foi essa certeza de passar despercebido que me fez deixar crescer a barbicha.
A minha falta de pilosidade facial é um motivo de lamentação aos 29 anos...
Nós, os cavaleiros (ninjas, vikings, piratas, mosqueteiros, etc. – dependendo do último filme que eu tenha visto) costumamos ter barba rija!
Tivesse eu uma floresta compacta nas trombas – em vez destas pestanas que crescem fora do sítio – e haveriam de ver coisas arrojadas a acontecer na minha cara todas as semanas!
Enfim, não é grave...
Quando eu era puto e queria brincar com a gilete, rapava os pelos das pernas. Quando me apareceu o buço, era tão discreto que a única forma de conquistar notoriedade foi rapando meio bigode – ficando com um “gode”, portanto.
Nota: embora eu já imaginasse que a prática não fosse original – género castigo medieval para batoteiros – vim a descobrir, com desgosto, que o nome também não: foi assim que o João da Ega baptizou essa moda com que se mascarou num Carnaval.
Bom, hoje, pela primeira vez na vida, vou sair à rua com bigode e barbicha aparada.
Nova Iorque, aguente-se!

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Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Apontamentos etnográficos #2

Andy Warhol, Elvis (com a mão esquerda livre para o garfo...)

Apesar dos E.U.A. se autoproclamarem o país mais desenvolvido do Mundo, a verdade é que há alguns factos que contradizem esta afirmação.
Não falamos da política externa imperialista, criminosa e desrespeitadora dos direitos humanos. Nem sequer falamos do seu capitalismo selvagem ou dos seus fundamentalistas religiosos. Nada disso! Falamos de coisas triviais e mundanas, pequenos pormenores indicadores de como, no Velho Mundo, mesmo um pequeno país pode estar mais avançado que a super-potência...

1ª exemplo: a faca
Num jantar sem cerimónias muitos americanos respiram de alívio por poderem deixar a faca pousada ao lado do prato (e, se estiverem em casa, ela nem vem para a mesa...)
Uma teoria antropológica, que me foi apresentada no gozo mas que se calhar tem o seu fundo de verdade, sugere que é uma prática que vem do tempo da conquista do Oeste: garfo na mão esquerda para deixar a direita livre para a pistola...
No entanto, a malta aqui é ciosa das boas maneiras à mesa e eu sofro horrores com a ética do guardanapo: se vierem comer por estes lados e não quiserem fazer figura de broncos, não se esqueçam de pôr o guardanapo ao colo e, no fim, amarrotá-lo com arte...
Devem pôr o guardanapo assim que se sentam e mesmo que estejam num restaurante português, mesmo que não estejam a comer coisa nenhuma, mesmo que à vossa volta esteja toda a gente a comer só com o garfo e que o guardanapos sejam de papel ranhoso, PONHAM A PORCARIA DO GUARDANAPO AO COLO!
Mr. Creosote, a famosa personagem dos Monty Phyton, estaria a usar guardanapo?

2ª exemplo: o contentor do lixo e o ecoponto.
Às segundas feiras, pelo menos em Brooklyn, é o dia da reciclagem.
Sendo iniciativa de se louvar num país que se está nas tintas para o Protocolo de Quioto, não resistimos a comentar que seria mais civilizado se utilizassem uns contentores em vez de empilharem o lixo em sacos à porta de casa:


3ª exemplo: os copos de vidro
É verdade: muitos dos copos que se usam aqui – em casa e nos cafés – são de plástico! (e então, se for para água e “sodas”, é quase certo...).
Bem vistas as coisas há vantagens: não se partem e eles já os fazem picotados para não se verem os riscos. É só a gente habituar-se a encostar o plástico aos beiços...

Finalmente, eu tinha dito que não ia falar de política, mas não resisto a comentar que se pagassem salário aos empregados dos cafés, restaurantes, etc. poupavam aos clientes o trabalho de estar sempre a fazer contas e trocar dinheiro para deixar gorjeta.

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Terça-feira, Agosto 15, 2006

O jogo da arte contemporânea

Marcel Duchamp, "Fountain" (1917)

Preparámos um joguinho para os leitores do Trelogue.
Vamos todos jogar?

Olhe atentamente para a fotografia e tente responder à questão: "É uma escultura moderna?".
A resposta é dada imediatamente a seguir.
Casa resposta certa vale 5 pontos. Por cada resposta que errar deverá descontar 5 pontos.
Prontos para começar?

Nível um: será arte ou apenas lavatórios de cozinha que alguém atirou para o monte?

Resposta: sim! é arte!




Nível dois: e agora? Arte ou uma pilha de contadores de água?

Ohhh! Apenas lixo... :(



Nível três: escultura fálica ou uns mecos em pé?

Resposta: Arte!! Mecos fálicos em escultura pé...




Escultura de lixo ou lixo de escultura?

É lixo!



E este paliteiro?

Paliteiro é arte!




E agora, mais difícil ainda!:

Não é arte... (pelo menos do lado de fora)



E se lhe aparecer isto? Mete a moeda?

O Pedro às vezes tem cada uma... então não se vê logo que é apenas uma máquina para crianças?
Não!! É arte!! Hahaha!!




E por fim, a mais difícil das propostas: os caixotes seguintes serão arte?

Não! Apenas a moldura!

(falamos, claro de uma moldura para o urinol com que se abre o post...)

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Vanitas


Harmen Steenwyck, "An allegory of the Vanities of Human Life" (c.1640)

Outro dia, gabava-me aqui de um conhecimento da língua inglesa e da cultura americana tão proficiente - tomem nota desta...- que até já conseguia pedir um pequeno-almoço em condições, tendo inclusivamente domínio sobre a forma como os ovos me apareciam à frente...
Oh, vanitas vanitatum... et omnia vanitas! - agora apanham com latim, que se lixam - Como eu me enganava...

O episódio do desengano:
Numa pizaria vou à casa de banho. A porta estava fechada e fui pedir a chave. Diz o puto do balcão:
- I'll buzz you in.
- ?
- I'll buzz you in!
- ???
- I'll buzz you in! I'll buzz you in! I'll buzz you in!

Na mítica série de televisão "Star Treck", quando os heróis queriam descer da nave, iam para um sítio especial. Depois davam a voz de comando "Beam me up, Scottie!" e feixes de luz especiais desciam do tecto, envolviam-lhes os corpos, desintegravam-nos e faziam-nos aparecer no planeta.
Como estamos na América e tudo é possível, eu fiquei à espera do teletransporte.

Mas tal não aconteceu e a explicação do mistério era outra: a porta do WC abre-se com um trinco automático que o puto activava e que faz "bzzzzzzzzzz"...

Caramba, este inglês não se ensina na escola!

Vai tudo à casa-de-banho...


"Buzz me up!"(copiei esta de um blogue mas já não sei qual...)

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Segunda-feira, Agosto 14, 2006

Nem mais uma corrida, nem mais uma viagem...


Coney Island: o "Recreio do Mundo"

Coney Island, no sul de Brooklyn, é uma zona balnear que no princípio do século conheceu a popularidade mas que aos poucos entrou em decadência.
Apesar de tudo, pelo menos no Verão, não está tão decadente quanto isso e uma das Feiras Populares sobreviventes (chegaram a ser três...) atrai bastante gente.
Também me atraiu a mim e lá fomos passar a tarde de sábado.

O parque de diversões, embora um bocado mais americanizado (o que desconfio que acontece por estarmos na América...) tem os divertimentos habituais, e quem conheceu a Feira Popular de Lisboa mata saudades.
Das maluqueiras à disposição, só andámos no Comboio Fantasma, por nostalgia, e na Montanha Russa por loucura. É essa experiência inesquecível que vou tentar descrever.

Mas antes ainda, e depois de alguma hesitação ética, resolvemos aventurar-nos no Freak Show (freak, em inglês, tem o significado de “anormal”, na pior conotação da palavra...).
Em vez de homens de quatro braços, mulheres barbadas ou anões siameses, esperava-nos, em sessões contínuas, um espectáculo de circo. Ou, pelo menos, de um certo circo: uns artistas engoliam espadas, outros fogo, outros ainda inalavam pregos e colheres para desconforto da assistência... Havia ainda o incrível inglês careca que pendurava uma bola de bowling nos buracos das orelhas e andava à roda tão depressa que, se as cartilagem cedessem, nós apanhávamos com a bola “nas fuças” e seriamos os próximos freaks do espectáculo... Outras atracções incluíam o show sexy da Serpentina com a piton albina, o malabarista da motosserra, a mulher que anda em cima de espadas, etc... O meu lado mais negro divertiu-se bastante...
(espreitem o site deles: http://www.coneyisland.com/sideshow.shtml)

E agora a montanha russa...
As montanhas-russas (e as primas americanas) costumam dar adrenalina à malta por permitirem a sensação de que se está cair de um prédio sem o problema da aterragem. Como a coisa é segura, o povo diverte-se.
Neste parque de diversões, experimentei uma sensação diferente: a montanha-russa em causa, com o nome de guerra de “The Cyclone”, abriu em 1927 e é tão velha, tão velha, que, uma vez no carrinho, um sentimento de horror puro apodera-se do incauto, pela certeza de que não vai sobreviver à coisa.
No minuto e cinquenta segundos que durou a viagem, pensei, várias vezes, se Deus, na sua infinita misericórdia, ainda me aceitaria nos braços se eu, rapidamente – no intervalo tempo que o carrinho demora desde o ‘descarril’ até esmagar-se no chão –, me arrependesse de todos os meus pecados.
Uhm... eu disse que a viagem durou um minuto e cinquenta segundos? Na realidade foi o dobro disso porque não resisti a andar duas vezes seguidas. E da segunda vez conseguimos mesmo o carrinho da frente e, acreditem, as violentas curvas levantam-no mesmo dos carris!
De facto, só mesmo a intervenção divina explica que aquela coisa funcione sem problemas desde 1927 e, na página oficial do parque, até há o relato de milagres: Emílio Franco, um mineiro mudo desde o nascimento pronunciou, em 1948, as suas primeiras palavras no Cyclone: “I feel sick!”
Isto, claro, depois de já ter gritado durante a “cavalgada”... Desmaiou depois de se ter apercebido que falara.
A Time Magazine cita Charles Lindbergh, o homem que, em 1927, atravessou a voar, sem paragens, o Atlântico Norte: diz o herói da aviação que a montanha-russa foi “more thrilling” que o célebre voo...
Nota: Gago Coutinho e Sacadura Cabral atravessaram o Atlântico Sul em 1922, mas não há relatos de que tenham andado nesta montanha-russa...
Oito décadas mais tarde, Pedro Medina Ribeiro diz: “Nunca mais me apanham noutra!”.







E só mais esta, para um amigo meu, que gosta muito da menina Scarlett Johansson, se roer de inveja ao ver que "partilhámos" o mesmo carrinho...


(as duas últimas fotos não são minhas)

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Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Os exterminadores


Um dia destes, ainda antes de eu chegar, apareceu um rato cá em casa.
Tratando-se de uma casa antiga - as chamadas Brownstones, com chão de madeira, etc. - o meu espanto é como é que os ratos não jantam todos os dias connosco à mesa... Bom, o certo é que não jantam e esta aparição foi o fim do Mundo: encheu-se logo a casa com ratoeiras HighTec e chamou-se o Exterminador...
Como tenho uma fobia parecida (osgas...) tive de me solidarizar com esta cruzada e fiquei esta manhã com as chaves dos três apartamentos para acompanhar a equipa de extermínio.
Pouco depois das nove tocavam à campainha: três exterminadores de lanterna em punho assumiram o controlo das operações como se se tratasse de uma operação militar em pleno teatro de guerra.
Quando eu estava à espera de que fossem pela casas fora a estraçalhar ratos com uma motosserra, a única coisa que fizeram foi andar de gatas a tapar buracos... Melhor assim!

Espero não estar a devassar a intimidade de ninguém se vos der uma imagem de buraco-de-fechadura dos apartamentos vizinhos.
No andar de baixo, vive-se um ambiente Ásia: pinceladas japonesas e filosofias orientais convivem com mobílias minimalistas e ornamentadas. Muito tranquilo...
No apartamento de cima mora um artista: câmara, fotografias ampliadas, cassetes de vídeo, livros de arte... Pelas paredes, reproduções, especialmente de Chagall.
E eis que acontece algo: eu, que nunca apreciei muito Chagall, rendi-me a um poster.
Aparentemente, o problema é que eu só conhecia Chagall pelos livros e as pequenas dimensões estão longe de fazer justiça aos quadros dele.
Ainda que reincida no pecado da pequena dimensão, deixo a imagem desse quadro de que gostei a ilustrar o post do meu aniversário, um bocadinho mais abaixo.
(sim, esta conversa toda foi para chegar ao quadro... e depois?)

Nota: esta malta é mesmo muito descontraída... sabendo que iam ter a visita dos exterminadores, deixaram cartões de crédito à vista e outras coisas que tais. E o vizinho de cima disse-me para deixar a porta no trinco... ou seja, é só rodar a maçaneta!

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Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Quadradinhos de Manhattan (e um rectângulo)

Fotografias de Manhattan. Ontem e anteontem.
(a primeira é mesmo de um SPA para cães...)





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Cumplicidades


Quando ficamos num sítio tempo suficiente, criamos um laço com esse espaço.
No regresso, a presença de detalhes acorda memórias que não pensávamos ter e essa ressurreição confere um sentimento de pertença.
Essa dependência pode ser potenciada pelo cumprimento de rituais: repetir frequências ou cumprimentar rostos que se conhecem são âncoras.
O preço a pagar é a perda de maravilhamento pela perda da novidade.

(Caramba! Pareço um tipo das Ciências da Educação a falar...)

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Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Apontamentos etnográficos #1


Norman Rockwell

Na América, o departamento do pequeno(??) almoço é uma vertigem!
Qualquer espelunca tem uma lista que, para um glutão como eu, se desdobra em dezenas de propostas irresistíveis. E agora que já me vou sabendo mexer é uma desgraça...

Traduzido do inglês:
– Como é que estamos hoje? [o cumprimento tradicional nos cafés e restaurantes que nos dá-nos um toque de clientes habituais que eu aprecio].
– Cheios de fome...
– Óptimo... e já escolheu?
– Bom, hoje são umas panquecas... mas espere, quero com bacon.
– Muito bem. Mais alguma coisa?
– Uhm... uma salsicha, talvez. E um ovo.
– Saalsiichaa e um oovo... [escreve no papelinho]. Como é que quer o ovo?
– “Sunny side up”. Eu disse “um ovo”? Traga antes dois... [os ovos podem ser, pelo menos, mexido, escalfados, cozidos ou estrelados. Nesta última categoria podem ser virados para cima ou para baixo e, por sua vez, bem ou mal passados...].
– Está tudo?
– Por acaso não tem “hashbrowns”? [umas batatas fritas tipo palha muito boas que eu vou aprender a fazer um dia destes...].
– Hashbrowns não temos...
– Então deixe estar. [feição decepcionada].

Alguns minutos de espera, a beber uma chavenazorra de café que vai sendo sempre enchida sem ser preciso pedir. Chega a comida em vários pratos.
Pensamento etnográfico: estes americanos são uns brutos!
Saio sem remorsos...

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Terça-feira, Agosto 08, 2006

Generosidade...


Mark Chagall, "Aniversário" (1915)

Vou dar-vos uma oportunidade de serem simpáticos:
Deixem-me aqui os parabéns pelo meu 29º aniversário que se comemora hoje!!
(não há pressa... se não lerem a mensagem hoje eu não me aborreço...)

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Sábado, Agosto 05, 2006

Férias

Coisa feia: fugi sem avisar...
Apanhei-me cá com a Sarah e fomos passear de carro. Quando tiver mais tempo deixo aqui umas imagens de uns sítios giros por onde passámos.
Amanhã faço uma fuga maior: Nova Iorque. Até ao fim das férias...
Logo se vê o que é que se consegue fazer de actualizações no Trelogue. Até lá!

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Quarta-feira, Julho 19, 2006

Poema bilingue

Coelho com pressa e menina gira
Os amantes à distância sofrem horrores...
Mas quando começa a contagem decrescente até se fazem poetas!
Aqui fica um poema a lá O'Neal:

...tic tac Sarah...
...tic Sarah tac...
...Sarah tic tac...
Búúúúúúúúúú!

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Troféu

Uma prenda que recebi da minha Directora de Turma preferida como "prémio" por ter sido o professor que deu mais negativas na turma dela...

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Segunda-feira, Julho 10, 2006

Praga

Deixo aqui mais uma história de "fantasmas" cheia de lugares comuns...
Espero que se divirtam.

I

No ano de 1863, cheguei a Praga para estudar Medicina.
O meu orçamento modesto restringia consideravelmente as minhas vontades e atirou-me para um colchão desconfortável numas águas-furtadas húmidas.
Da janela, uma vista esmagadora mostrava a cidade fervilhante o que, para este campónio, era um convite permanente para deixar os livros.
O outro hóspede da minha senhoria era meu colega de faculdade e cedo se tornou um amigo de uma estirpe que só me parece ser possível nascer da camaradagem de quem partilha as adversidades e felicidades próprias da vida de estudante.
Foi o acaso que fez de mim e de Frederich colegas e vizinhos, mas as nossas vidas seguiram de tal forma irmanadas que, muitas vezes, dei por mim a apreciar como os pequenos imponderáveis se vêm a revelar fulcros importantes dos percursos futuros.
Juntos bebemos vinho, conhecemos mulheres e arranjámos brigas. Cantámos e dançámos. Nadámos nus no Moldava em noites quentes de Verão e secámos a fugir da polícia. Jogámos às cartas e adormecemos às estrelas à espera que o dia nos mostrasse o caminho de casa. Discutimos política e sonhámos sonhos difíceis.
Ao mesmo tempo, e por incrível que pareça, íamo-nos fazendo médicos (mais eu do que ele...) e tornámo-nos inseparáveis.
Claro que foi preciso algum tempo para aprender a arte de conjugar a estroinice com a aplicação académica, mas não era nada que estes dois habilidosos não conseguissem...
Foi também juntos que começámos as leituras esotéricas.

Não há, que eu conheça, sítio como Praga para fazer o mais céptico acreditar numa ordem obscura intrínseca, quanto mais a dois jovens sequiosos de viver a vida e de conhecer o Mundo.
Os livros mágicos prometiam poder e nós tínhamos as fraquezas de Fausto.
Hoje rio-me ao pensar como foi necessariamente inconsequente esta aventura obscurantista, mas fez-nos frequentar reuniões secretas, praticar rituais estranhos e lidar com as mais interessantes figuras que até hoje me foram dadas a conhecer.
Posso prometer contar-vos outros pormenores deste período se a vossa curiosidade o exigir, mas, para já, seria um desvio ao que aqui me traz.

Frederich sempre foi de um temperamento mais apaixonado e lidava de uma forma diferente com estes temas. Já depois de eu me afastar, de uma forma natural, destas práticas heterodoxas (para sempre inoculado por achar que prometiam muito, não explicavam nada e ainda menos faziam), ele ainda continuou — e confio que até há bem pouco tempo dava uso à mesa de pé-de-galo que comprou numa loja de velharias na parte antiga da cidade.
As pretensas faculdades mediúnicas de Frederich abriram-nos as portas de uma certa burguesia histérica e foi nesse meio vicioso que ele haveria de conhecer a bela Maria.
Maria era uma jovem como poucas creio haver, dona de uma inteligência argutíssima e de uma cultura impressionante, construída sobre muitas horas na biblioteca do seu pai, reputado professor de Latim da Universidade de Praga, que pessoalmente se empenhou na educação da jovem.
Há rostos que mostram a alma e o de Maria mostrava, transparente, a sua personalidade. Pretendentes não lhe faltavam mas, sob muitos aspectos, Friederich era um homem apaixonante e não lhe foi difícil cativar o coração da jovem.
O professor de Latim não se mostrou muito agradado com a escolha da filha mas não teve melhor remédio do que aceitar o noivado, impondo apenas a condição de que Friederich acabasse o curso.
Desconfio que foi o melhor móbil que o rapaz podia ter encontrado para, com esforço, se fazer doutor — embora, tanto quanto saiba, jamais ele viesse a fazer melhor medicina do que usar o estetoscópio e receitar mezinhas...
Três anos depois, consumava-se o casamento e a nova família abandonava Praga para se estabelecer num palacete nos arredores de Trieste onde Friederich se dedicou à criação e comércio de cães.
Por meu turno, montei consultório em Praga, onde viria a casar e a enviuvar pouco depois, sem filhos.
As apresentações estão feitas.

II
Uma única vez os visitei: foi dois anos depois do seu casamento quando, em resposta a um convite, fui passar uma temporada com eles para ultrapassar o meu luto.
O palácio era uma casa soberba. Ficava a uma légua da pequena povoação de L., envolvido por uma paisagem extasiante de floresta e montanha.
O muro alto que circundava a casa só se interrompia para um gigantesco portão de ferro forjado que iniciava um caminho por uma magnífica alameda de carvalhos centenários. As árvores abriam-se depois num pátio gravilhado, com um belo jardim de sebes bem aparadas sobre o qual o casarão se impunha.
Dois enormes mastins receberam-me com desconfiança mas, às palavras dos criados, afastaram-se submissos. Duas crianças brincavam, alheias à minha chegada; eram Joana e Gabriel, os dois gémeos do casal.
Não consigo, na minha imaginação, conceber cenário mais idílico nem família mais feliz.

Nos vinte anos que se seguiram, os meus contactos com Friederich mantiveram-se assiduamente por carta, mas não me lembro de nos termos encontrado mais do que meia-dúzia de vezes e sempre de forma breve. Contudo, cada encontro fazia-nos sentir tão próximos como nunca, como se houvéssemos estado sempre juntos, tal era a irmandade da nossa amizade. Nenhuma separação física conseguia afastar estas duas almas.
Até que, estranhamente, há cerca de ano e meio, ele, pela primeira vez, falhou a resposta a uma carta minha.
Por vezes os correios atrasavam-se, pelo que não me preocupei excessivamente. A minha preocupação firmou-se quando, depois de insistir, continuei sem resposta.
Depois de um silêncio de oito meses, acabei por receber uma carta de Frederich a desculpar-se pela negligência, mas a epístola só conseguiu deixar-me ainda mais intranquilo: a sua caligrafia era quase ilegível, transparecia perturbação e as suas palavras para me sossegar não foram nada convincentes. Algo de grave se estava a passar.
Insisti numa explicação mas só tive o silêncio por resposta.
Telegrafei a propor a minha presença e, desta vez, a resposta – peremptoriamente negativa – não tardou. Pelo contrário, chegou com uma brevidade quase antipática.
Decidi esperar pelo Verão para, a pretexto de uns banhos em Veneza, me desviar a Trieste. Escrevi a informar dos meus intentos quando já estava a caminho pelo que uma negativa ser-me-ia desconhecida.

Poucos dias depois estava em Trieste, a alugar uma carruagem que me levasse até à pequena vila.
À medida que me aproximava a minha angústia aumentava e um sentimento inexplicável oprimia-me o coração. Quando cheguei, já o Sol se punha e o recorte do casarão em contraluz tinha um aspecto soturno.
Quando a carruagem parou, as minhas pernas tremiam sem que eu percebesse se era a dormência da viagem ou um prenúncio de desgraça.
O portão entreaberto já fazia perceber a ruína que eu iria encontrar adiante.
Subi a alameda a correr e quando me tive frente ao palácio o cenário esmagou-me o coração: o belo jardim que eu conhecera era agora um mato espesso de descuido e acho que não minto se disser que havia janelas partidas na fachada da casa.
Quando Frederich me abriu a porta quase não o reconheci: era um homem derrotado e envelhecido. As lágrimas vieram-me aos olhos e a voz embargou-se-me traindo a imagem de confiança que eu queria transparecer. Um longo abraço uniu-nos por minutos.
— Onde está Maria? — perguntei.
— Foi arranjar-se. Não demora a vir receber-te.
Pouco depois, Maria chegava com a filha. Pelo cheiro que as acompanhava percebi que cozinhavam o jantar: a casa já não tinha criados!
As minhas malas continuavam à porta, onde eu as havia pousado, e fingi não ver Joana (que se tinha feito uma bela mulher, herdeira da inteligência e beleza dos pais) discretamente e com esforço, arrastá-las para os meus aposentos.
Durante as horas que se seguiram não tive coragem de falar senão de banalidades e só quando Maria se retirou perguntei a Frederich o que se estava a passar.
Apenas o pudor me impede de vos descrever as evidências do homem derrotado que irrompeu em lágrimas à minha frente. Frederich soluçava quando me disse:
— O Gabriel está... muito doente.
— O que se passa? O que é que ele tem?
— Está possuído! Está completamente possuído...
Confesso que na altura não atribuí a estas palavras nenhum significado mais profundo.
— O Gabriel... já não é o meu filho!
E desfez-se em lágrimas de uma forma compulsiva.
Abracei-o, comovido, e procurei, em vão, acalmá-lo.
— Onde é que ele está? Posso vê-lo? — perguntei.
— Não!! Nem pensar!
— Frederich, sou médico. Lembras-te?
— Não percebes... Não se trata de medicina! Não há medicina para isto. O meu filho está possuído...
Era o desespero de um pai a falar. Era o desespero do meu amigo a falar!
Resolvi não insistir mais por aquele dia e propus que fossemos descansar das emoções. Mas, apesar da dureza da viagem, a noite revelava-se impossível para o descanso e eu revolvia-me na cama sem réstia de sono.
O luar de uma Lua quase cheia irrompia pelo quarto quando um gemido atroz soou. O sangue gelou-se-me nas veias: não era humano aquele som, mas também nenhum animal da Terra o produziria...
E depois deste gemido outro se lhe seguiu!
Peguei num castiçal e abri a porta do quarto. O corredor reproduzia em eco aquele som sobrenatural e eu, que me julgava de coragem, hesitei ao descer as escadas.
Em baixo, na sala, fui encontrar Frederich de roupão, sentado no sofá com o rosto afundado nas mãos.
— É ele. É aquela besta, outra vez...
O seu olhar era quase demente. E prosseguiu, sussurrando:
— Não te preocupes, está bem fechado lá em baixo. Tem correntes. Dali não sai...
Ficámos ali os dois o resto da noite, sem falar, a ouvir aqueles uivos medonhos que pareciam vir das entranhas da casa.
Eu estava sem saber o que pensar ou o que dizer. Simplesmente não compreendia. Apenas sabia que algo de muito terrível estava a acontecer naquela casa...
Só quando o Sol se anunciou é que cessaram os horríveis gemidos.
Maria apareceu pouco depois, com profundas olheiras e os olhos vermelhos das lágrimas. Trazia-nos café.
Ninguém falou. Éramos pessoas vencidas.
Subi para o meu quarto para descansar umas horas e só me levantei no fim da manhã.
Quando voltei à sala Frederich parecia esperar-me.
— Anda. Vem vê-lo — pediu-me.

III
Como muitas outras casas senhoriais, o palácio havia sido construído sobre os restos de uma fortificação que a paz tinha tornado desnecessária.
Segui atrás do meu amigo por uma escada de pedra que descia até às profundas fundações daquela estrutura e detivemo-nos em frente a uma porta de aço que parecia de construção recente.
— Tive de a mandar fazer. Tem três dedos de espessura. Não tenhas medo, ele agora está calmo. Já é dia...
Frederich fez rodar uma chave, abriu a porta e entrou sem receio.
— Vem — chamou-me — não tenhas medo. É o Gabriel. Vem.
Uma janela alta, gradeada como uma prisão, deixava entrar a luz matinal, mas o interior da cela estava ainda bastante escuro e os meus olhos demoraram a habituar-se à escuridão.
Frederich abeirava-se de um corpo desfalecido no chão. Era Gabriel que jazia inanimado, nu, preso por grossas correntes a uma argola cravada na parede...
Abeirei-me do seu corpo.
— Dá-me luz — pedi.
Frederich dirigiu-me a lanterna.
O rapaz exibia sinais de exaustão e o seu corpo estava marcado pela luta contra as correntes. Reparei que tinha pedaços de tecido em volta do corpo.
Frederich ensaiou então a melhor explicação que lhe consegui arrancar:
— Acontece todos os vinte e oito dias, com a Lua. Tem as crises... Fica possuído... O corpo parece crescer e rebenta-lhe a roupa. Fica violento, e sem as correntes não sei o que poderia fazer. Não sei melhor do que dizer que é o demónio que entra nele.
— Não digas disparates. Deve ser uma histeria qualquer... Já tenho lido sobre isso. As pessoas são sugestionadas por qualquer motivo e o corpo manifesta-se dessa forma. Estou certo de que tudo se resolverá.
— Não percebes...
— A irmã está bem?
Frederich acenou afirmativamente.
— Tem alguns sinais de demência?
Frederich respondeu que não.
— Como é que ele é quando não tem as crises?
— É o meu filho. O meu Gabriel... mas depois diz-me “pai, leva-me para baixo. Põe-me as correntes...”
E irrompeu num choro que me dilacerou o coração. Mantive o sangue frio:
— Que sedativos lhe administraste?
— Morfina. Parece acalmá-lo um pouco... mas cada nova crise está a ser mais violenta.
Notei que a perna do rapaz estava profundamente marcada por cicatrizes antigas.
— O que são estas marcas? — perguntei.
— Foi um cão. O animal enlouqueceu e quase lhe arrancou a perna. Tivemos de o abater. Mas isso já foi há uns anos.
Maria apareceu à porta. Trazia água e comida para o filho.
— É o nosso castigo por brincarmos com demónios... — disse enquanto pousava o tabuleiro.
Eles estavam perfeitamente convencidos da existência de uma causa sobrenatural. Eu não. Embora fossem raros, tinha conhecimento de casos parecidos mas explicáveis à luz da ciência moderna.
No final da tarde decidi regressar a Praga para procurar ajuda especializada.
Reuni o estritamente essencial para a viagem, Frederich selou-me um cavalo e parti em direcção à pequena vila onde alugaria uma carruagem.
Quando lá cheguei senti o peso de todo o cansaço das emoções e das privações de sono e de comida por que havia passado nas últimas horas, e resolvi parar na estalagem para uma breve refeição.
Sentado à espera da comida, eu era alvo de todas as atenções e desconfianças. Era inútil iludir-me e pensar que havia na vila quem desconhecesse o que se estava a passar no palácio. E se os meus amigos, estudados e cultos, não encontravam melhor explicação do que demónios, o que não pensaria esta gente?
Enquanto esperava, comecei a cabecear de sono — a carneirar, como se dizia quando eu era pequeno... — e, por não ter coragem para regressar, achei melhor alugar um quarto para descansar um par de horas.
Como me arrependo hoje dessa fraqueza!... Tivesse eu continuado a viagem e teria sido poupado ao mais horrível espectáculo que os olhos podem contemplar... Mas não, fiquei, para sofrer.

IV
Assim que me deitei, adormeci imediatamente. Mas foi sono de má qualidade e acordei vezes incontáveis, sobressaltado com a recordação dos gritos selvagens a ecoar-me na cabeça. Àquela hora Frederich, a mulher e a filha estariam a ouvi-los novamente e o seu sofrimento parecia-me insuportável.
Já a noite estava alta quando acordei com gritos reais: uma agitação popular ebulia na rua. Da janela do meu quarto pude ver uma pequena multidão de archotes e armada de forquilhas e machadas.
— O que se passa? — gritei para o estalajadeiro.
— Há pessoas desaparecidas e o povo parte para a busca.
Senti a hostilidade daquela gente e receei pelos meus amigos. O palácio, parecia-me, seria um destino natural para aquela ira popular e não me enganava.
Montei e parti a galope ajudado pela Lua e pelo facto de o cavalo conhecer o caminho.
Por causa da montada cheguei com grande avanço sobre a multidão mas, na minha ansiedade, desmontei com o animal ainda em movimento e caí, magoando-me numa perna. Coxeei para a porta aberta. Quando entrei só encontrei horror e destruição.

A sala encontrava-se num caos profundo, com a mobília toda destruída, as estantes tombadas e o seu conteúdo espalhado pelo chão. Não havia um palmo que não tivesse cacos e destroços.
Gritei por Frederich e por Maria mas não tive resposta.
Empunhei um atiçador de lareira e subi, a coxear, as escadas para os quartos.
O corpo de Maria jazia nos degraus, tombado de bruços, com as roupas rasgadas. Quando o virei, não pude impedir o grito que a visão do seu rosto desfigurado me provocou. Ela parecia ter morrido de horror!
Mas o pior estava para vir...
Corri para o quarto de Frederich. Estava vazio. Igualmente arrasado, mas vazio.
Corri para o escritório. Apenas destroços. Por toda a parte destruição!
Desci as escadas gritando o nome do meu amigo como um louco.
Encontrei-o quando cheguei à cozinha.
Não vou descrever o que vi pois ninguém precisa de imaginar por que é que passei. Já é demais dizer que o seu corpo fora feito em pedaços que se espalhavam por toda a parte, numa cozinha tinta de sangue.
Com os muitos anos da violenta profissão que tenho, imaginei que não poderia ver nada que me impressionasse. Como estava enganado! Curvei-me, contraído em vómitos, e cambaleei para a rua onde cedi ao peso das emoções e caí de joelhos.
Embora ainda longe, já se ouviam os gritos da multidão e, apesar da claridade da manhã já se insinuar, viam-se as luzes bruxuleantes dos archotes por entre a vegetação.
Depois de reflectir, com o discernimento que a situação permitia, tive um acto, que hoje hesito em classificar de estupidez ou de loucura — que por vezes não são fáceis de distinguir... — e voltei a entrar naquela casa.
Acendi uma vela e comecei a descer para a cave.
Já nas escadas faltou-me a coragem e fiquei ali, estático, com a cera a queimar-me os dedos. Mas o som da multidão que se aproximava acordou-me daquele torpor e continuei a descer em direcção à câmara do monstro.
A meio do caminho encontrei a grossa porta de aço amolgada como se fosse uma folha de lata de estanho. A besta havia-a rebentado com uma facilidade surpreendente e, por maioria de razão, as grossas correntes não teriam constituído grande impedimento.
A dois metros da entrada parei sem coragem.
A luz da aurora que entrava pela janela da cela já chegava ao corredor e, a acreditar na minha visita do dia anterior, se o monstro lá estivesse, devia jazer inanimado.
Que loucura era a minha que me levava ali? Para quê?
Era a altura de fazer o que o amor incondicional dos pais não permitira e que havia sido a sua destruição...
Pelos gritos que se ouviam, a multidão estava próxima.
Respirei fundo, segurei o atiçador com a força que consegui e avancei.
Confesso que o que encontrei dentro da pequena cela me surpreendeu: Gabriel estava lá dentro e imóvel, mas não da forma que eu antecipara. Estava, sim, enforcado nas suas correntes: a forma humana em que um monstro emergia sob influências lunares não conseguiu viver com a culpa e matou o corpo procurando o castigo, a redenção e a prevenção de crimes futuros.
Sobrevivente àquele massacre, agarrada aos pés suspensos do irmão, Joana soluçava.

A multidão invadia agora o palácio. Os gritos de raiva interromperam-se pela surpresa que o inesperado cenário provocou, mas depressa retomaram com redobrado vigor. Ouvia-se o ruído de vidros a serem partidos e a euforia da destruição. Que mais haveria para destruir? Não sei...
Puxei a rapariga para mim e arrastei-a para fora daquele quarto.
Seria uma questão de tempo até sermos surpreendidos pelos populares e eu receava que fossemos vítimas daquela histeria de violência colectiva. Mas Joana conduziu-me, pelo corredor subterrâneo, a uma providencial porta para o jardim traseiro. Essa saída, discreta e muito oportuna, evitou que nos cruzássemos com a multidão que invadia a casa e que estava demasiado entretida nas suas pilhagens para notar a nossa falta.
Durante horas, caminhámos juntos em silêncio, apoiados um no outro, afastando-nos daquele inferno.
Atrás de nós uma espessa nuvem de fumo elevava-se no ar e, por vezes, via-se uma labareda mais alta que sobressaia no céu púrpura.
Que o fogo tenha para sempre purificado aquele lugar!

Joana, sem mais ninguém, veio viver comigo para Praga e aos poucos a nossa proximidade desenvolveu-se.
Nunca trocámos uma palavra sobre o assunto, mas os nossos rostos têm marcas da tortura que os olhos que possuem sofreram.
Só me pergunto se poderei vir a dormir mais uma noite da minha vida descansado...


Pedro Medina Ribeiro
Nisa, 11 a 19 de Maio 2004

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Sábado, Junho 10, 2006

As maravilhosas aventuras do João na Terra Fantástica

"The Lady of Shalott", John William Waterhouse, (1888)

Um concurso literário com um prémio generoso pôs-me a escrever um conto infantil. Uma vez que já foram divulgados os vencedores posso, finalmente, dá-lo a conhecer... De acordo com o regulamento do concurso, a referência à Trofa era uma condição e o incentivo à leitura um objectivo.

I

Há quem demore muito até descobrir – e desconfio que muita gente ainda não deu por isso – mas a verdade é que todas as casas têm, escondida, uma passagem para outra dimensão.
Espelhos e armários são muito citados na literatura como passagens privilegiadas para a Terra Fantástica mas, no meu caso, o “buraco” estava escondido num livro.
Na altura em que aconteceu o que vos conto, havia em minha casa um sofá confortável (que até já tinha uma covinha no sítio onde eu deitava a cabeça) e que estava encostado a uma estante com livros. Quem estivesse deitado nele só tinha de esticar o braço para ‘colher’ um livro, e era o que eu costumava fazer nas tardes em que não tinha aulas ou companhia para outras aventuras. Claro que não era raro eu adormecer a meio da leitura e ter os sonhos incríveis que a imaginação sugestionada favorece...
Havia muitos livros na estante mas eu conhecia-os a todos. Pelo menos de capa. Por isso, imaginem o meu espanto quando, um dia, reparei num que nunca tinha visto. E o mais estranho era ser um livro que chamava bem a atenção, quer por ser maior do que os outros, quer por ter aspecto de muito antigo.
Foram precisas as duas mãos para o tirar da estante e, mesmo no colo, o seu peso fazia-se sentir. Tinha um cheiro agradável, que misturava o couro da capa com o papel antigo, e, quando finalmente o abri para ver se sabia ler o que ele pudesse ter escrito, confirmou-se o que eu já suspeitava: aquele era um livro muito especial!
As suas páginas não tinham letras ou imagens e, para falar a verdade, nem sei se se pode chamar folhas àqueles lençóis espelhados que pareciam ser feitos de água.
Toquei-lhes com um dedo e, tal como se fossem feitas do líquido, ele atravessou-as.
Fiquei algum tempo sem me mexer, incrédulo, por ter visto parte do meu corpo desaparecer por um livro adentro! Depois, inevitavelmente, acabei por enfiar o braço todo e tentei, sem sucesso, fazer com que as pontas dos dedos tocassem em algo que me informasse sobre o que havia do outro lado. Finalmente, resolvi-me a espreitar como deve ser, e enfiei toda a cabeça nessa nova dimensão...

II

Poucas coisas são mais espantosas de se ver do que um gnomo a falar com um gigante!
Claro que o gnomo não podia estar no chão (porque senão o gigante não o conseguia ouvir nem mesmo se ele gritasse muito...), e por isso o gigante tinha pegado nele e tinha-o pousado no ramo de uma árvore.
A imagem era espantosa, não só pela figura de cada um deles mas, acima de tudo, pelo contraste de um ser tão pequeno a falar com um tão grande.
Não sei se já viram algum, mas um gigante é uma figura magnífica.
Mais tarde, fiquei a saber que há gigantes de muitos tamanhos, desde o vulgar gigante de três metros até aos maiores de todos que nunca foram vistos e que só se sabe que existem porque a Terra treme quando eles andam. Este, que eu tinha à minha frente, era de tamanho médio mas, mesmo assim, devia conseguir tocar os sinos da igreja com a ponta do nariz.
A conversa deles estava bastante animada pelo que não repararam logo em mim. Quando finalmente me viram, olharam-me desinteressadamente e continuaram a conversar. Confesso que fiquei ofendido com a indiferença. Eu sei que não sou tão interessante quanto as outras criaturas fantásticas que eles devem estar habituados a ver por ali, mas não lhes ficava mal cumprimentarem-me!
Apesar de ofendido, resolvi perguntar-lhes que sítio era aquele a que eu tinha ido parar. Assim que me aproximei não pude deixar de ouvir a conversa:
– É que não se passa nada! – queixava-se o Gnomo.
– Absolutamente nada! – concordava o Gigante.
– E há já muito tempo. Pelo menos mil anos...
Interrompi-os gritando cumprimentos lá para cima:
– Boas tardes, senhor Gigante e senhor Gnomo!
– Não grites. – reclamou o Gnomo. – Que mania têm as pessoas de gritar... Não é preciso: um gigante tem umas orelhas muito grandes e por isso ouve muito bem, e um gnomo é tão pequeno que ouve o mais insignificante som!
Claramente a minha teoria sobre a audição dos gnomos e dos gigantes estava errada, pelo que me apressei a pedir desculpa:
– Não sabia!... É a primeira vez que falo com um gigante ou um gnomo. Aliás, é a primeira vez que aqui venho. Podem fazer o favor de me dizer que sítio é este?
O Gnomo e o Gigante olharam um para o outro e abanaram a cabeça em sinal de quem dava pouco crédito à minha inteligência. Respondeu o Gnomo, claramente o mais falador dos dois:
– É óbvio que estás dentro do Livro dos Livros! O sítio onde tudo pode acontecer... O cenário de todas as histórias que se contam e que se imaginam. Terra de heróis e de seres magníficos! Esta é a verdadeira Terra Fantástica: tudo o que alguma vez foi sonhado, pensado, concebido, idealizado ou planeado tornou-se realidade neste sítio!
Terminou o seu longo esclarecimento com uma vénia, mas depois, como se tivesse acabado de dizer a coisa mais natural deste mundo, continuou a sua conversa ignorando-me sobranceiramente. Achei que já não tinha mais nada a fazer ali pelo que me despedi, virei costas, e já me preparava para desaparecer quando o Gigante me chamou:
– Já me esquecia! Estavam à tua procura...
À minha procura? Como é que podiam estar à minha procura num sítio em que ninguém me conhecia?
– Quem? – quis eu saber.
– Eles – respondeu o gigante apontando para trás de si.
Eu não conseguia ver ninguém (fosse por ele estar a tapar tudo com o seu corpo imenso ou porque, devido à sua altura, visse coisas que eu não conseguia ver) mas conseguia ouvir: ouvia o som de cavalos a galope. Quem quer que estivesse à minha procura vinha a cavalo
O som tornava-se cada vez mais forte, o que queria dizer que os cavaleiros se aproximavam. Já estavam bastante perto quando o Gigante abriu as pernas e pelo arco formado por elas passaram seis cavalos. Em cada cavalo estava um homem e cada homem tinha uma armadura. Depois, todos ao mesmo tempo, puxaram as rédeas com força e os cavalos empinaram-se como fariam se estivessem num filme. Pareciam peças de um jogo de xadrez!
Era um espectáculo bonito de se ver: seis cavalos pretos magníficos, brilhantes de suor, e seis cavaleiros com armaduras tão polidas que era quase impossível olhar para elas por reflectirem o Sol.
O cavaleiro que ia à frente, e que era obviamente o mais importante, aproximou-se de mim. Levantou a viseira do elmo (que tinha um penacho vermelho de passarão) e perguntou-me com voz de cavaleiro:
– O que é que tu és?
Confesso que não percebi bem a pergunta mas respondi com orgulho:
– Sou do Trofense, claro!
– Não! Não é nada disso... – explicou impaciente. – És um unicórnio, um duende, um mago, um dragão ou um príncipe? Talvez sejas um cavaleiro! És um cavaleiro?
“Que pergunta mais tola”, pensei eu. “Então não se vê logo que sou um rapaz?
– Eu sou o João e venho da Trofa! E não sei nada de dragões ou de príncipes...—respondi.
O Gnomo virou-se para nós e falou do cimo da árvore:
– Lorde Capacete, ele acabou de chegar. Acho que ainda não percebeu onde está...
– Aaaaaah! Um recém-chegado... – disse o cavaleiro com ar de quem já estava a perceber tudo. E virando-se para mim:
– Porque é que não disseste logo, rapaz? Agora tens de descobrir o que é que vais ser. Podes ser muita coisa... Talvez, quem sabe, um gnomo ou um gigante como eles, ou um guarda da Rainha como nós. O que dava mesmo jeito era que fosses um herói! Precisamos imenso de heróis nesta terra. Há centenas de anos que não temos uma boa aventura e assim não pode ser: sem aventuras não há Terra Fantástica...
– E como é que eu vou saber o que é que eu sou?
– Isso é o mais fácil: a Dama do Lago diz-te.
– A Dama do Lago? E onde é que ela está?
– Que pergunta mais tola, francamente! Não lês livros? A Dama do Lago está... no Lago! Que vais ter de descobrir onde fica (não te posso dizer tudo porque senão tirava a graça toda...). Podes começar por ir na direcção das montanhas e boa sorte, D. João da Trofa! Que te enchas de glória e de aventuras é o nosso maior desejo...
Depois desceu a viseira do elmo e com as esporas espevitou o cavalo que começou o galope seguido pelos outros cinco cavaleiros que não tinham aberto a boca.
Voltei a ficar sozinho com o Gigante e o Gnomo, mas agora com uma missão importante: descobrir o que é que eu era naquela terra, fosse lá o que fosse que isso queria dizer.
Despedi-me e comecei a andar em direcção às montanhas que se viam bem no horizonte. Já tinha andando um pouco mas ainda ouvi o Gnomo gritar:
– Tem cuidado com os Lobos. Não vais querer encontrar nenhum... e, claro, não vás na conversa das Raposas. Lobos e Raposas são do pior que se pode encontrar pela frente (sem contar com a Bruxa, claro, mas em relação a ela não há nada a fazer!)
Agradeci os conselhos e continuei.


III

Já estava a andar há umas horas sem ver vivalma quando cheguei à floresta.
Seria impensável que a Terra Fantástica não tivesse pelo menos uma boa floresta... Esta ficava no sopé das montanhas e não havia dúvidas que a teria de atravessar para chegar ao Lago.
Nessa altura apercebi-me de que nunca tinha estado numa floresta.
Os meus pais já me tinham levado a passear à tapada e até já tínhamos feito piqueniques na mata, mas uma floresta a sério era uma estreia para mim. Esta era exactamente como eu imaginava que uma floresta deveria ser: tinha árvores gigantescas e ouviam-se sinfonias de canto de pássaro misturadas com sons de outros animais que nem consigo imaginar. Aliás, para dizer a verdade, até assustava um pouco e eu preferia não ter ouvido falar do Lobo e da Bruxa... Quase pensei em desistir e voltar para trás, mas fiz-me valente, enchi o peito, e entrei.
Ao fim de uma hora a andar sem saber muito bem por onde estava a ir, cheguei a uma clareira simpática, com chão de erva alta e uma abertura nas árvores que deixava ver o céu e por onde se percebia que era final de tarde. Mas a melhor parte era que o chão estava cheio de fruta! Era fruta a sério e eu comi uma barrigada de uvas.
Quando me senti satisfeito e quis continuar a viagem não fui capaz: comecei a sentir uma soneira imensa! Era muito estranho porque ainda não era de noite – nem nada que se parecesse – mas eu estava com tanto sono como se fosse ter a primeira aula da manhã... Acabei por me encostar a um enorme castanheiro e, com a raiz por almofada, adormeci profundamente.
Não faço ideia de quanto tempo é que estive a dormir, mas acordei sobressaltado, com a sensação de que estava alguém ao pé de mim.
Já vos falei do espanto de ver um Gnomo a falar com um Gigante, agora imaginem uma clareira na floresta cheia de centauros, sátiros e faunos a brincar com ninfas! O que foi ainda mais incrível foi a velocidade com que desapareceram no instante em perceberam que eu estava acordado! Eram tão tímidos quanto rápidos e eu iria achar que tinha sonhado se a erva não estivesse toda pisada depois das tropelias daquela gente.
Ainda esfregava os olhos quando reparei que não estava sozinho: à minha frente, a olhar para mim com ar divertido, estava um duende da floresta.
– Fartaste-te de dormir! – disse ele a rir. – Estava a ver que não acordavas...
O Duende tinha um aspecto muito engraçado e bem-disposto. Era tão pequeno quanto o Gnomo mas era mais bonito e mais ágil. Levantou-se com uma deliciosa pirueta e veio sentar-se à minha frente, de pernas cruzadas.
– De repente fiquei cheio de sono... – expliquei.
– É natural! Fartaste-te de comer uvas. Essas uvas dão muito sono... são especiais. Eu tinha-as deixado aí para apanhar o Lobo, mas parece que foste tu quem caiu na armadilha.
– Oh... e dormi muito?
– Dois dias e duas noites. Mas não te preocupes que não se passou de importante na tua ‘ausência’. Aliás, aqui nunca se passa nada...
– Por falar nisso, tenho de encontrar a Dama do Lago. Sabes como é que posso chegar ao Lago?
– Não estás longe, mas também não é fácil estar a explicar-te... Espera, vais ter uma boa ajuda: vou dar-te um búzio mágico que te vai indicar o caminho.
Dizendo estas palavras, abriu um saco que trazia a tiracolo e tirou lá de dentro uma concha de búzio que, apesar de frágil, atirou para as minhas mãos.
O búzio era grande e parecia impossível que tivesse saído de dentro de um saco tão pequeno, mas lembrei-me que ele tinha dito que era um búzio mágico e, provavelmente, os búzios mágicos cabem em sacos de qualquer tamanho.
– Se encostares o búzio ao ouvido ouves o som da água do Lago. Tens de andar na direcção em que o som for mais forte. Se for preciso, andas à volta para procurares melhor, mas vais ver que é fácil – explicou o Duende.
– Mas isso é óptimo! Vai ser uma grande ajuda...
Eu estava com uma preocupação antiga e não resisti a fazer uma pergunta:
– Diz-me uma coisa, esse Lobo que anda por aí...
O Duende interrompeu-me com as suas gargalhadas:
– Não tens de te preocupar com o Lobo! Toda a gente sabe que estás cá e estão todos muito entusiasmados contigo porque acham que tens cara de herói e ninguém ia deixar que o Lobo te fizesse mal. Se ele te aparecer, só tens de ser simpático e não o arreliar.
Despedi-me, muito contente com aquele encontro, e continuei a minha caminhada.
Sentia-me melhor, agora que tinha o búzio. De vez em quando, lá o ia encostando ao ouvido e ouvia distintamente o barulho de água a correr. E cada vez se ouvia melhor... Pelo menos, já não andava sem direcção. Coisa fantástica aquela!
Ainda não tinha andado muito quando comecei a ter a sensação de estar a ser seguido. Mas, por mais rapidamente que eu me voltasse, não conseguia ver ninguém e acabei por achar que era só a minha imaginação. De repente, ao meu lado – quem é que eu vejo? – a Raposa!
– Tenho a honra de estar a falar com o D. João da Trofa, o rapaz que não sabe o que é? Aquele que pode ser o herói que todos esperamos? – perguntou ela com voz doce.
– Parece que sim... – respondi, sem dar muita confiança.
– Tu és muito famoso por estes lados. Toda a gente gostou muito de ti...
– A sério? “Toda a gente” quem?
– As pessoas que te foram ver enquanto dormias. E foram todos, ou quase todos... Mas isso agora não interessa. O que interessa é que não podes andar por aí sozinho; a floresta é um sítio perigoso. Precisas de um escudeiro! E quem melhor do que a Raposa para te acompanhar?
Apesar dos avisos do Gnomo, a Raposa não me parecia perigosa. Convencida e interesseira, talvez, mas não perigosa. Entretanto, ia escurecendo, e ter uma companhia não me desagradava nada.
A Lua já tinha nascido quando, de repente, um uivo medonho soou pela floresta!
Nesse instante, todos os pássaros se calaram e a Raposa parou com ar assustado. Dir-se-ia que tinha perdido toda a coragem.
Embora eu já tivesse percebido que o uivo vinha do Lobo de quem todos falavam com receio, fiz de conta de que nada sabia e perguntei:
– Ó escudeiro, que som é este? Parecia estar tão perto, não achaste? Aposto que é alguém que me vem cumprimentar...
A Raposa estava quase sem fala e foi a muito custo que respondeu:
– Este som? Não sei... certamente algum bicharoco sem interesse. Sabes que mais? Lembrei-me de que, afinal, hoje não posso ficar... Tenho milhões de coisas para fazer! Mas amanhã (ou depois, ou depois) venho ter contigo. Adeusinho!
E desapareceu, tão depressa quanto tinha chegado.
O chão à minha frente já se via mal, mas felizmente o búzio tinha boas notícias para mim: cantava tão alto que eu nem precisava de o encostar ao ouvido. Até fiquei com medo de que a água do Lago começasse a sair do búzio para fora e me encharcasse todo!
Entusiasmado por já estar a chegar ao Lago, comecei a andar mais depressa, quase a correr. De repente, a floresta acabou e ali estava ele à minha frente.


IV

Finalmente, o Lago! E que belo que era...
Parecia quase o mar, só que era mais pequeno e tinha árvores a toda a volta.
As águas eram muito tranquilas e reflectiam a Lua em sombras azuis e luz prateada. No meio havia uma pequena ilha com um castelejo, em que brilhava uma luz amarela de cera e saía fumo pela chaminé. Só podia ser a morada da Dama do Lago...
Como todas as ilhas, esta só se podia alcançar de barco ou a nado e, como eu preferia a primeira hipótese, tratei de procurar uma embarcação. Felizmente, não foi preciso procurar muito: a dez passos de mim estava uma canoa amarrada a uma árvore.
A canoa não tinha remos mas, depois de tudo o que eu tinha visto, já não me espantei quando as amarras se soltaram sozinhas e a canoa veio até à minha beira. Sentei-me nela e deslizámos tranquilamente por entre os juncos, em direcção à ilha.
À minha espera, na água, estava a Dama do Lago!
Trazia um vestido branco, comprido, que se estendia à sua volta e, na cabeça, uma coroa feita de flores. Tinha um sorriso muito belo e eu senti que não me podia mexer perante uma visão tão magnífica. A Dama do Lago parecia mesmo a Joaninha! (para quem não saiba, a Joaninha é rapariga mais bonita da minha escola e, provavelmente, do mundo inteiro – embora isso eu não possa jurar).
– Ouvi dizer que estavas à minha procura – disse-me ela, com a vós mais bonita que se pode imaginar e um sorriso muito meigo.
– Sim. Queria saber o que é que eu vou ser...
– Deixemos isso para amanhã. Hoje vais descansar.
Pegando na minha mão, ajudou-me a descer da canoa e conduziu-me ao pequeno castelo. Movia-se com tamanha elegância e os seus gestos eram tão graciosos que parecia pairar no ar.
O interior do castelo deixou-me sem palavras: a luz que iluminava os aposentos não vinha de lado nenhum mas de toda a parte, e um som de música ouvia-se sem que eu soubesse quem é que a tocava. Era a música mais maravilhosa que eu já ouvira... Dir-se-ia que tudo ali era mágico e que a Dama era rainha dessa magia. O material de que as fadas são feitas...
No centro da sala, estava uma mesa posta para mim. Sentei-me e comi com apetite. Quando acabei, a Dama do Lago mostrou-me o meu quarto e eu deitei-me na cama mais confortável em que alguma vez estive. Ela passou-me a mão pelo olhos, adormecendo-me profundamente, e foi certamente esse gesto que me deu os belos sonhos que tive...
Na manhã seguinte, estava tão recomposto que parecia ter dormido outros dois dias. Pude lavar-me e vestir roupas novas. Depois, desci para procurar a minha anfitriã e fui encontrá-la no jardim, sentada entre as flores. Levantou-se quando me viu chegar e deu-me os bons-dias com um beijo na testa.
– Estás pronto para conheceres as respostas às tuas questões? – perguntou-me.
Assenti com um gesto de cabeça e ela conduziu-me a uma fonte de onde nascia uma água cristalina.
– Vais debruçar-te sobre as águas e a imagem que vires reflectida é aquilo que serás na Terra Fantástica. Antes de olhares tens de ter a certeza de que estás preparado: podes ver um ser que os teus olhos nunca viram e pode ser algo belo ou hediondo. Uma vez conhecida a tua condição não a poderás recusar: sempre que venhas à Terra Fantástica serás essa figura. Agora espreita.
Com enorme ansiedade, aproximei-me das águas, lentamente, de olhos fechados. Quando os abri e olhei para o reflexo...
...vi apenas a minha cara de sempre, a imagem que eu tão bem conheço dos espelhos em que me olho. Nada de diferente. Esperei ver acontecer uma transformação, mas não. Sempre a minha cara.
A Dama do Lago sorriu. Levantei os olhos para ela, pedindo uma explicação.
– Nunca tinha acontecido. Mas fico feliz: confirma-se que és especial...— disse ela.
– Mas o que é que isto quer dizer?
– Quer dizer que podes ser o que quiseres. Tu é que vais decidir o que queres ser.
Nessa altura, algo muito estranho se passou: deu-me uma vontade imensa de chorar e as lágrimas começaram a rolar pela minha cara. Chorei muito, mas com imenso prazer.
As lágrimas que caíram juntaram-se no chão formando uma pequena poça.
Dos olhos infinitamente tristes da Dama do Lago também escorreu uma lágrima – uma única lágrima – que se diria feita de prata e que se juntou às minhas. E aconteceu uma coisa mágica: no instante em que os dois líquidos se fundiram, uma árvore nasceu naquele sítio. Primeiro, uma folha; depois, um pequeno tronco. Um tronco que foi engrossando à nossa vista até se fazer numa bela árvore folhada, que floriu e que deu lindos frutos maduros. A Fada colheu o mais perfeito, trincou-o e estendeu-mo. Eu comi-o com imenso prazer.
– Não precisas de saber já o que queres ser. Tens tempo para decidir. Vais ter com a Rainha e dizes-lhe qual foi a tua decisão. Ela conceder-te-á esse desejo, respeitando o que tiveres escolhido. Nesse instante tornar-te-ás no objecto da tua escolha. Escolhe com sabedoria. O palácio da Rainha fica do outro lado das montanhas e vai levar-te dois dias de caminhada até lá chegares. O fruto que comeste não te deixará sentir fome e as roupas que trazes não te deixarão sentir frio. Certamente que na viagem irás viver bons momentos e conhecer muita gente interessante. Quem sabe se não farás bons amigos?...
Queria ter ficado ali para sempre mas percebi que era a hora da despedida.
Entrei para a canoa e deixei-me levar suavemente sobre as águas do Lago em direcção às montanhas. Voltei-me para trás, para acenar à Dama do Lago que ia ficando mais pequena. Ouvi a sua voz na minha cabeça: “Jamais me irei esquecer de ti!”. Também eu jamais me esqueceria dela e ela sabia-o.


IV


Imagino que tenham curiosidade em saber o que me aconteceu nos dois dias e duas noites que demorei a atravessar as montanhas.
De facto, a viagem tinha reservado para mim muitas surpresas e acabei por conhecer o Lobo, a Bruxa e muita outra gente interessante. Mas, mais importante que tudo isso, foi mesmo o que passei a conhecer sobre mim próprio.
Escusado será dizer que, durante todo o tempo, pensei na importante decisão que ia ter de tomar e tive imensas dúvidas. Era como se um génio me concedesse um desejo e eu não soubesse o que escolher...
De qualquer forma, o relato desses dois dias de viagem seria longo e, como não quero aborrecer ninguém, vou deixá-lo para melhor altura. Mas não vos queria deixar ir embora sem que ficassem a conhecer os pormenores da minha entrevista com a Rainha...
Depois de atravessar as montanhas avistei ao longe o palácio.
Via-se bem porque estava num ponto alto e era uma construção magnífica com imponentes torreões e uma muralha, que o separava da animada vila que o rodeava. À medida que me fui aproximando, fui-me apercebendo do ambiente de festa: bandeiras vibravam ao vento e ouviam-se clarins e tambores. Festejavam a minha chegada!
Assim que me viram, enviaram ao meu encontro uma delegação de boa-vindas. Eram os meus já conhecidos cavaleiros, chefiados por Lorde Capacete e, juntos, desfilámos pelas ruas por entre os ensurdecedores gritos de alegria da multidão.
Quando chegámos ao palácio, a ponte-levadiça desceu, uma grossa grade de ferro subiu e uma imensa porta de madeira abriu-se. Só então pudemos entrar.
Depois de atravessarmos salões elegantes e corredores infinitos, chegámos à sala onde a corte estava reunida para me receber. Entre os convidados estavam todos os amigos que fui fazendo durante a viagem (incluindo o Gnomo, o Duende, a Raposa e até o Gigante que, não cabendo na sala, espreitava por uma janela). Ao fundo, sentada num trono, estava a Rainha.
Não conheço as etiquetas complicadas destas cerimónias, pelo que me aproximei devagar e parei a uma distância respeitosa. A Rainha cumprimentou-me com simpatia e, depois de algumas perguntas de circunstância, foi directa ao assunto:
– Já decidiste o que queres ser?
Ouviu-se um murmúrio de expectativa na corte e os olhos da Rainha brilhavam de curiosidade. Respirei fundo para arranjar coragem e respondi:
– Já decidi, Majestade, mas não quero ser herói.
Houve uma exclamação de surpresa geral...
– Como assim? O que queres tu ser? – perguntou ela quase zangada.
E, sem me deixar responder, continuou:
– Tu sabes quanto precisamos de um herói: a Terra Fantástica sem aventuras deixa de fazer sentido!
Foi nessa altura, que fiz o meu discurso. Ainda me recordo das palavras exactas:
– Eu penso que estão todos enganados sobre este assunto: desde o primeiro segundo em que aqui cheguei não parei de ter aventuras! Conheci seres formidáveis, tive sustos e alegrias, atravessei florestas, lagos e montanhas. Na verdade, todas as viagens são uma imensa aventura: percebê-lo depende apenas dos nossos olhos e da nossa vontade. Ninguém pode ser herói por decreto real. O destino desta Terra Fantástica não passa por aquilo que eu possa ser, mas sim por aquilo que todos vocês são. Apenas precisam de aprender – outra vez – a maravilharem-se, como as crianças que pela primeira vez ouvem falar de Gnomos e de Gigantes, de Elfos e Bruxas. Por tudo isto, Majestade, o que eu quero mesmo é continuar a ser o João da Trofa.
Quando acabei, houve um momento de silêncio a que se seguiu uma enorme ovação que pareceu que ia durar para sempre e que só terminou quando a Rainha fez tenção de falar:
– De facto, falas com sabedoria e não imagino que um herói usasse outras palavras! Parece mesmo que te devemos uma preciosa lição... Sê, então, o João que queres ser e regressa à tua casa. Mas só depois de prometeres que vais voltar muitas vezes!
– Prometo! – exclamei, sincero.
Quando conto aos amigos que estas palavras são a minha última recordação daquela visita à Terra Fantástica e que, quando abri os olhos, estava no meu velho sofá, muitos dizem que sonhei. Eu sei que não.
Aos cépticos, a quem as fantasias pouco dizem e àqueles que, sendo crentes, ainda não encontraram a sua passagem para a Terra Fantástica, só tenho a dizer que tenham paciência: não há de tardar até que me acompanhem em aventuras. Àqueles que são familiares às maravilhas de que falei, só tenho de piscar um olho e despedir-me.
Sonhos? Talvez... Nem é para outra coisa que os livros servem!

FIM

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Segunda-feira, Junho 05, 2006

O professor de Matemática...


A propósito dos disparates dos professores de Matemática, deixa-se um último argumento:

I
Dos mistérios do Mundo, o da Criação parece ser o mais insondável. E, no entanto, até aos meus doze anos acreditei saber-lhe a resposta: acreditei que havia sido feito em sete dias pela mão do Senhor.
Supremo conhecimento este! Jamais eu soube tanto como quando era criança...

Um só homem havia de fazer ruir este edifício sagrado: Hector Kaufmann, o meu velho professor de matemática.
Uma figura inesquecível, a de Kaufmann... Apresentava-se às aulas de forma irrepreensível, em fato preto de corte perfeito. A barba branca, aparada com mestria, conferia-lhe uma respeitabilidade invejável que sublinhava a correcção com que leccionava. Invariavelmente, entusiasmava-se de tal maneira com os teoremas que saía em desalinho, coberto com uma nuvem de giz e o cabelo despenteado.
Para as crianças que éramos, o teatro era muito mais estimulante que a Matemática, e divertíamo-nos com a figura do velho mais do que seria próprio em atenção ao respeito que lhe devíamos. Poucos professores conheci, mesmo entre os génios de cátedra, que possuíssem uma parcela deste magnetismo do meu professor do liceu.
Uma pessoa tão crente como Kaufmann jamais se perdoaria se adivinhasse as consequências de uma distracção fortuita... Sobre a lousa, o giz deixava a demonstração de um teorema de Euclides quando descobri, numa passagem menos clara, o que se assemelhava a um erro na dedução. Foram precisos minutos para que ganhasse coragem para questionar o óbvio. Contra algumas expectativas, o erro foi assumido e corrigido, não se mostraram ressentimentos, e o verdadeiro ensinamento foi a lição de honestidade intelectual com que o velho professor lidou com a situação.
Como acho que se compreende, durante os dias que se seguiram, a recordação do episódio produzia em mim um enebriamento narcisista e a minha imaginação ficou inundada de imagens minhas como orador matemático para uma plateia de kaufmanns estarrecidos.
Só mais tarde havia de chegar o tempo em que, paulatinamente, a lucidez veio e me permitiu uma reflexão mais consequente. Mas foi apenas o início de uma outra bebedeira, que haveria de me deixar alienado de uma forma diferente e que se conserva até hoje: daí por diante todo o conhecimento me pareceu estar impregnado de uma relatividade absoluta. Deixei de ter certezas, passei a ter perspectivas. Todos os ensinamentos passaram a ser olhados por mim com uma desconfiança residual, a desconfiança do erro oculto.
Depois percebi que se encontrei o erro do professor foi por causa da transparência irrepreensível da matemática. A geometria dos Elementos de Euclides assenta em axiomas, mas é produto de uma racionalidade iluminada, aberta à crítica, e convida todos os iniciados a sugerir outras abordagens.
Apenas a Ciência tem a honestidade intelectual do velho Kaufmann e a sua vitalidade dinâmica de “não recear o erro por estar disposta a corrigi-lo” — para citar anacronicamente outro brilhante professor de Matemática.
Enfim, aprendi que até Hector Kaufmann se pode enganar, quanto mais a Bíblia... Deus não era uma hipótese necessária para Laplace; para mim passou a ser desnecessária e fraudulenta, um recurso de retórica. O meu ateísmo não era militante, apenas era... uma honestidade intelectual.

Outro passo gigante na minha relação com a procura do conhecimento foi dado tarde, já nos meus tempos de Faculdade, quando percebi o que era a Filosofia, e que a Ciência pouco podia sem ela. Abandonada a religião, foi nestas duas formas de conhecimento que encontrei o trilho por onde havia de fazer seguir a minha vida.

Mas o meu crescimento intelectual não foi só feito de passos firmes. Para além da Religião, da Ciência e da Filosofia acreditei na minha juventude ter encontrado mais uma janela para ler as linhas em que o mundo se escreve: o obscurantismo e o esoterismo. É aí que começa a história que quero contar.

(introdução de um conto que quero polir antes de pôr aqui...)

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