Um concurso literário com um prémio generoso pôs-me a escrever um conto infantil. Uma vez que já foram divulgados os vencedores posso, finalmente, dá-lo a conhecer... De acordo com o regulamento do concurso, a referência à Trofa era uma condição e o incentivo à leitura um objectivo.
I
Há quem demore muito até descobrir – e desconfio que muita gente ainda não deu por isso – mas a verdade é que todas as casas têm, escondida, uma passagem para outra dimensão.
Espelhos e armários são muito citados na literatura como passagens privilegiadas para a Terra Fantástica mas, no meu caso, o “buraco” estava escondido num livro.
Na altura em que aconteceu o que vos conto, havia em minha casa um sofá confortável (que até já tinha uma covinha no sítio onde eu deitava a cabeça) e que estava encostado a uma estante com livros. Quem estivesse deitado nele só tinha de esticar o braço para ‘colher’ um livro, e era o que eu costumava fazer nas tardes em que não tinha aulas ou companhia para outras aventuras. Claro que não era raro eu adormecer a meio da leitura e ter os sonhos incríveis que a imaginação sugestionada favorece...
Havia muitos livros na estante mas eu conhecia-os a todos. Pelo menos de capa. Por isso, imaginem o meu espanto quando, um dia, reparei num que nunca tinha visto. E o mais estranho era ser um livro que chamava bem a atenção, quer por ser maior do que os outros, quer por ter aspecto de muito antigo.
Foram precisas as duas mãos para o tirar da estante e, mesmo no colo, o seu peso fazia-se sentir. Tinha um cheiro agradável, que misturava o couro da capa com o papel antigo, e, quando finalmente o abri para ver se sabia ler o que ele pudesse ter escrito, confirmou-se o que eu já suspeitava: aquele era um livro muito especial!
As suas páginas não tinham letras ou imagens e, para falar a verdade, nem sei se se pode chamar folhas àqueles lençóis espelhados que pareciam ser feitos de água.
Toquei-lhes com um dedo e, tal como se fossem feitas do líquido, ele atravessou-as.
Fiquei algum tempo sem me mexer, incrédulo, por ter visto parte do meu corpo desaparecer por um livro adentro! Depois, inevitavelmente, acabei por enfiar o braço todo e tentei, sem sucesso, fazer com que as pontas dos dedos tocassem em algo que me informasse sobre o que havia do outro lado. Finalmente, resolvi-me a espreitar como deve ser, e enfiei toda a cabeça nessa nova dimensão...
II
Poucas coisas são mais espantosas de se ver do que um gnomo a falar com um gigante!
Claro que o gnomo não podia estar no chão (porque senão o gigante não o conseguia ouvir nem mesmo se ele gritasse muito...), e por isso o gigante tinha pegado nele e tinha-o pousado no ramo de uma árvore.
A imagem era espantosa, não só pela figura de cada um deles mas, acima de tudo, pelo contraste de um ser tão pequeno a falar com um tão grande.
Não sei se já viram algum, mas um gigante é uma figura magnífica.
Mais tarde, fiquei a saber que há gigantes de muitos tamanhos, desde o vulgar gigante de três metros até aos maiores de todos que nunca foram vistos e que só se sabe que existem porque a Terra treme quando eles andam. Este, que eu tinha à minha frente, era de tamanho médio mas, mesmo assim, devia conseguir tocar os sinos da igreja com a ponta do nariz.
A conversa deles estava bastante animada pelo que não repararam logo em mim. Quando finalmente me viram, olharam-me desinteressadamente e continuaram a conversar. Confesso que fiquei ofendido com a indiferença. Eu sei que não sou tão interessante quanto as outras criaturas fantásticas que eles devem estar habituados a ver por ali, mas não lhes ficava mal cumprimentarem-me!
Apesar de ofendido, resolvi perguntar-lhes que sítio era aquele a que eu tinha ido parar. Assim que me aproximei não pude deixar de ouvir a conversa:
– É que não se passa nada! – queixava-se o Gnomo.
– Absolutamente nada! – concordava o Gigante.
– E há já muito tempo. Pelo menos mil anos...
Interrompi-os gritando cumprimentos lá para cima:
– Boas tardes, senhor Gigante e senhor Gnomo!
– Não grites. – reclamou o Gnomo. – Que mania têm as pessoas de gritar... Não é preciso: um gigante tem umas orelhas muito grandes e por isso ouve muito bem, e um gnomo é tão pequeno que ouve o mais insignificante som!
Claramente a minha teoria sobre a audição dos gnomos e dos gigantes estava errada, pelo que me apressei a pedir desculpa:
– Não sabia!... É a primeira vez que falo com um gigante ou um gnomo. Aliás, é a primeira vez que aqui venho. Podem fazer o favor de me dizer que sítio é este?
O Gnomo e o Gigante olharam um para o outro e abanaram a cabeça em sinal de quem dava pouco crédito à minha inteligência. Respondeu o Gnomo, claramente o mais falador dos dois:
– É óbvio que estás dentro do Livro dos Livros! O sítio onde tudo pode acontecer... O cenário de todas as histórias que se contam e que se imaginam. Terra de heróis e de seres magníficos! Esta é a verdadeira Terra Fantástica: tudo o que alguma vez foi sonhado, pensado, concebido, idealizado ou planeado tornou-se realidade neste sítio!
Terminou o seu longo esclarecimento com uma vénia, mas depois, como se tivesse acabado de dizer a coisa mais natural deste mundo, continuou a sua conversa ignorando-me sobranceiramente. Achei que já não tinha mais nada a fazer ali pelo que me despedi, virei costas, e já me preparava para desaparecer quando o Gigante me chamou:
– Já me esquecia! Estavam à tua procura...
À minha procura? Como é que podiam estar à minha procura num sítio em que ninguém me conhecia?
– Quem? – quis eu saber.
– Eles – respondeu o gigante apontando para trás de si.
Eu não conseguia ver ninguém (fosse por ele estar a tapar tudo com o seu corpo imenso ou porque, devido à sua altura, visse coisas que eu não conseguia ver) mas conseguia ouvir: ouvia o som de cavalos a galope. Quem quer que estivesse à minha procura vinha a cavalo
O som tornava-se cada vez mais forte, o que queria dizer que os cavaleiros se aproximavam. Já estavam bastante perto quando o Gigante abriu as pernas e pelo arco formado por elas passaram seis cavalos. Em cada cavalo estava um homem e cada homem tinha uma armadura. Depois, todos ao mesmo tempo, puxaram as rédeas com força e os cavalos empinaram-se como fariam se estivessem num filme. Pareciam peças de um jogo de xadrez!
Era um espectáculo bonito de se ver: seis cavalos pretos magníficos, brilhantes de suor, e seis cavaleiros com armaduras tão polidas que era quase impossível olhar para elas por reflectirem o Sol.
O cavaleiro que ia à frente, e que era obviamente o mais importante, aproximou-se de mim. Levantou a viseira do elmo (que tinha um penacho vermelho de passarão) e perguntou-me com voz de cavaleiro:
– O que é que tu és?
Confesso que não percebi bem a pergunta mas respondi com orgulho:
– Sou do Trofense, claro!
– Não! Não é nada disso... – explicou impaciente. – És um unicórnio, um duende, um mago, um dragão ou um príncipe? Talvez sejas um cavaleiro! És um cavaleiro?
“Que pergunta mais tola”, pensei eu. “Então não se vê logo que sou um rapaz?
– Eu sou o João e venho da Trofa! E não sei nada de dragões ou de príncipes...—respondi.
O Gnomo virou-se para nós e falou do cimo da árvore:
– Lorde Capacete, ele acabou de chegar. Acho que ainda não percebeu onde está...
– Aaaaaah! Um recém-chegado... – disse o cavaleiro com ar de quem já estava a perceber tudo. E virando-se para mim:
– Porque é que não disseste logo, rapaz? Agora tens de descobrir o que é que vais ser. Podes ser muita coisa... Talvez, quem sabe, um gnomo ou um gigante como eles, ou um guarda da Rainha como nós. O que dava mesmo jeito era que fosses um herói! Precisamos imenso de heróis nesta terra. Há centenas de anos que não temos uma boa aventura e assim não pode ser: sem aventuras não há Terra Fantástica...
– E como é que eu vou saber o que é que eu sou?
– Isso é o mais fácil: a Dama do Lago diz-te.
– A Dama do Lago? E onde é que ela está?
– Que pergunta mais tola, francamente! Não lês livros? A Dama do Lago está... no Lago! Que vais ter de descobrir onde fica (não te posso dizer tudo porque senão tirava a graça toda...). Podes começar por ir na direcção das montanhas e boa sorte, D. João da Trofa! Que te enchas de glória e de aventuras é o nosso maior desejo...
Depois desceu a viseira do elmo e com as esporas espevitou o cavalo que começou o galope seguido pelos outros cinco cavaleiros que não tinham aberto a boca.
Voltei a ficar sozinho com o Gigante e o Gnomo, mas agora com uma missão importante: descobrir o que é que eu era naquela terra, fosse lá o que fosse que isso queria dizer.
Despedi-me e comecei a andar em direcção às montanhas que se viam bem no horizonte. Já tinha andando um pouco mas ainda ouvi o Gnomo gritar:
– Tem cuidado com os Lobos. Não vais querer encontrar nenhum... e, claro, não vás na conversa das Raposas. Lobos e Raposas são do pior que se pode encontrar pela frente (sem contar com a Bruxa, claro, mas em relação a ela não há nada a fazer!)
Agradeci os conselhos e continuei.
III
Já estava a andar há umas horas sem ver vivalma quando cheguei à floresta.
Seria impensável que a Terra Fantástica não tivesse pelo menos uma boa floresta... Esta ficava no sopé das montanhas e não havia dúvidas que a teria de atravessar para chegar ao Lago.
Nessa altura apercebi-me de que nunca tinha estado numa floresta.
Os meus pais já me tinham levado a passear à tapada e até já tínhamos feito piqueniques na mata, mas uma floresta a sério era uma estreia para mim. Esta era exactamente como eu imaginava que uma floresta deveria ser: tinha árvores gigantescas e ouviam-se sinfonias de canto de pássaro misturadas com sons de outros animais que nem consigo imaginar. Aliás, para dizer a verdade, até assustava um pouco e eu preferia não ter ouvido falar do Lobo e da Bruxa... Quase pensei em desistir e voltar para trás, mas fiz-me valente, enchi o peito, e entrei.
Ao fim de uma hora a andar sem saber muito bem por onde estava a ir, cheguei a uma clareira simpática, com chão de erva alta e uma abertura nas árvores que deixava ver o céu e por onde se percebia que era final de tarde. Mas a melhor parte era que o chão estava cheio de fruta! Era fruta a sério e eu comi uma barrigada de uvas.
Quando me senti satisfeito e quis continuar a viagem não fui capaz: comecei a sentir uma soneira imensa! Era muito estranho porque ainda não era de noite – nem nada que se parecesse – mas eu estava com tanto sono como se fosse ter a primeira aula da manhã... Acabei por me encostar a um enorme castanheiro e, com a raiz por almofada, adormeci profundamente.
Não faço ideia de quanto tempo é que estive a dormir, mas acordei sobressaltado, com a sensação de que estava alguém ao pé de mim.
Já vos falei do espanto de ver um Gnomo a falar com um Gigante, agora imaginem uma clareira na floresta cheia de centauros, sátiros e faunos a brincar com ninfas! O que foi ainda mais incrível foi a velocidade com que desapareceram no instante em perceberam que eu estava acordado! Eram tão tímidos quanto rápidos e eu iria achar que tinha sonhado se a erva não estivesse toda pisada depois das tropelias daquela gente.
Ainda esfregava os olhos quando reparei que não estava sozinho: à minha frente, a olhar para mim com ar divertido, estava um duende da floresta.
– Fartaste-te de dormir! – disse ele a rir. – Estava a ver que não acordavas...
O Duende tinha um aspecto muito engraçado e bem-disposto. Era tão pequeno quanto o Gnomo mas era mais bonito e mais ágil. Levantou-se com uma deliciosa pirueta e veio sentar-se à minha frente, de pernas cruzadas.
– De repente fiquei cheio de sono... – expliquei.
– É natural! Fartaste-te de comer uvas. Essas uvas dão muito sono... são especiais. Eu tinha-as deixado aí para apanhar o Lobo, mas parece que foste tu quem caiu na armadilha.
– Oh... e dormi muito?
– Dois dias e duas noites. Mas não te preocupes que não se passou de importante na tua ‘ausência’. Aliás, aqui nunca se passa nada...
– Por falar nisso, tenho de encontrar a Dama do Lago. Sabes como é que posso chegar ao Lago?
– Não estás longe, mas também não é fácil estar a explicar-te... Espera, vais ter uma boa ajuda: vou dar-te um búzio mágico que te vai indicar o caminho.
Dizendo estas palavras, abriu um saco que trazia a tiracolo e tirou lá de dentro uma concha de búzio que, apesar de frágil, atirou para as minhas mãos.
O búzio era grande e parecia impossível que tivesse saído de dentro de um saco tão pequeno, mas lembrei-me que ele tinha dito que era um búzio mágico e, provavelmente, os búzios mágicos cabem em sacos de qualquer tamanho.
– Se encostares o búzio ao ouvido ouves o som da água do Lago. Tens de andar na direcção em que o som for mais forte. Se for preciso, andas à volta para procurares melhor, mas vais ver que é fácil – explicou o Duende.
– Mas isso é óptimo! Vai ser uma grande ajuda...
Eu estava com uma preocupação antiga e não resisti a fazer uma pergunta:
– Diz-me uma coisa, esse Lobo que anda por aí...
O Duende interrompeu-me com as suas gargalhadas:
– Não tens de te preocupar com o Lobo! Toda a gente sabe que estás cá e estão todos muito entusiasmados contigo porque acham que tens cara de herói e ninguém ia deixar que o Lobo te fizesse mal. Se ele te aparecer, só tens de ser simpático e não o arreliar.
Despedi-me, muito contente com aquele encontro, e continuei a minha caminhada.
Sentia-me melhor, agora que tinha o búzio. De vez em quando, lá o ia encostando ao ouvido e ouvia distintamente o barulho de água a correr. E cada vez se ouvia melhor... Pelo menos, já não andava sem direcção. Coisa fantástica aquela!
Ainda não tinha andado muito quando comecei a ter a sensação de estar a ser seguido. Mas, por mais rapidamente que eu me voltasse, não conseguia ver ninguém e acabei por achar que era só a minha imaginação. De repente, ao meu lado – quem é que eu vejo? – a Raposa!
– Tenho a honra de estar a falar com o D. João da Trofa, o rapaz que não sabe o que é? Aquele que pode ser o herói que todos esperamos? – perguntou ela com voz doce.
– Parece que sim... – respondi, sem dar muita confiança.
– Tu és muito famoso por estes lados. Toda a gente gostou muito de ti...
– A sério? “Toda a gente” quem?
– As pessoas que te foram ver enquanto dormias. E foram todos, ou quase todos... Mas isso agora não interessa. O que interessa é que não podes andar por aí sozinho; a floresta é um sítio perigoso. Precisas de um escudeiro! E quem melhor do que a Raposa para te acompanhar?
Apesar dos avisos do Gnomo, a Raposa não me parecia perigosa. Convencida e interesseira, talvez, mas não perigosa. Entretanto, ia escurecendo, e ter uma companhia não me desagradava nada.
A Lua já tinha nascido quando, de repente, um uivo medonho soou pela floresta!
Nesse instante, todos os pássaros se calaram e a Raposa parou com ar assustado. Dir-se-ia que tinha perdido toda a coragem.
Embora eu já tivesse percebido que o uivo vinha do Lobo de quem todos falavam com receio, fiz de conta de que nada sabia e perguntei:
– Ó escudeiro, que som é este? Parecia estar tão perto, não achaste? Aposto que é alguém que me vem cumprimentar...
A Raposa estava quase sem fala e foi a muito custo que respondeu:
– Este som? Não sei... certamente algum bicharoco sem interesse. Sabes que mais? Lembrei-me de que, afinal, hoje não posso ficar... Tenho milhões de coisas para fazer! Mas amanhã (ou depois, ou depois) venho ter contigo. Adeusinho!
E desapareceu, tão depressa quanto tinha chegado.
O chão à minha frente já se via mal, mas felizmente o búzio tinha boas notícias para mim: cantava tão alto que eu nem precisava de o encostar ao ouvido. Até fiquei com medo de que a água do Lago começasse a sair do búzio para fora e me encharcasse todo!
Entusiasmado por já estar a chegar ao Lago, comecei a andar mais depressa, quase a correr. De repente, a floresta acabou e ali estava ele à minha frente.
IV
Finalmente, o Lago! E que belo que era...
Parecia quase o mar, só que era mais pequeno e tinha árvores a toda a volta.
As águas eram muito tranquilas e reflectiam a Lua em sombras azuis e luz prateada. No meio havia uma pequena ilha com um castelejo, em que brilhava uma luz amarela de cera e saía fumo pela chaminé. Só podia ser a morada da Dama do Lago...
Como todas as ilhas, esta só se podia alcançar de barco ou a nado e, como eu preferia a primeira hipótese, tratei de procurar uma embarcação. Felizmente, não foi preciso procurar muito: a dez passos de mim estava uma canoa amarrada a uma árvore.
A canoa não tinha remos mas, depois de tudo o que eu tinha visto, já não me espantei quando as amarras se soltaram sozinhas e a canoa veio até à minha beira. Sentei-me nela e deslizámos tranquilamente por entre os juncos, em direcção à ilha.
À minha espera, na água, estava a Dama do Lago!
Trazia um vestido branco, comprido, que se estendia à sua volta e, na cabeça, uma coroa feita de flores. Tinha um sorriso muito belo e eu senti que não me podia mexer perante uma visão tão magnífica. A Dama do Lago parecia mesmo a Joaninha! (para quem não saiba, a Joaninha é rapariga mais bonita da minha escola e, provavelmente, do mundo inteiro – embora isso eu não possa jurar).
– Ouvi dizer que estavas à minha procura – disse-me ela, com a vós mais bonita que se pode imaginar e um sorriso muito meigo.
– Sim. Queria saber o que é que eu vou ser...
– Deixemos isso para amanhã. Hoje vais descansar.
Pegando na minha mão, ajudou-me a descer da canoa e conduziu-me ao pequeno castelo. Movia-se com tamanha elegância e os seus gestos eram tão graciosos que parecia pairar no ar.
O interior do castelo deixou-me sem palavras: a luz que iluminava os aposentos não vinha de lado nenhum mas de toda a parte, e um som de música ouvia-se sem que eu soubesse quem é que a tocava. Era a música mais maravilhosa que eu já ouvira... Dir-se-ia que tudo ali era mágico e que a Dama era rainha dessa magia. O material de que as fadas são feitas...
No centro da sala, estava uma mesa posta para mim. Sentei-me e comi com apetite. Quando acabei, a Dama do Lago mostrou-me o meu quarto e eu deitei-me na cama mais confortável em que alguma vez estive. Ela passou-me a mão pelo olhos, adormecendo-me profundamente, e foi certamente esse gesto que me deu os belos sonhos que tive...
Na manhã seguinte, estava tão recomposto que parecia ter dormido outros dois dias. Pude lavar-me e vestir roupas novas. Depois, desci para procurar a minha anfitriã e fui encontrá-la no jardim, sentada entre as flores. Levantou-se quando me viu chegar e deu-me os bons-dias com um beijo na testa.
– Estás pronto para conheceres as respostas às tuas questões? – perguntou-me.
Assenti com um gesto de cabeça e ela conduziu-me a uma fonte de onde nascia uma água cristalina.
– Vais debruçar-te sobre as águas e a imagem que vires reflectida é aquilo que serás na Terra Fantástica. Antes de olhares tens de ter a certeza de que estás preparado: podes ver um ser que os teus olhos nunca viram e pode ser algo belo ou hediondo. Uma vez conhecida a tua condição não a poderás recusar: sempre que venhas à Terra Fantástica serás essa figura. Agora espreita.
Com enorme ansiedade, aproximei-me das águas, lentamente, de olhos fechados. Quando os abri e olhei para o reflexo...
...vi apenas a minha cara de sempre, a imagem que eu tão bem conheço dos espelhos em que me olho. Nada de diferente. Esperei ver acontecer uma transformação, mas não. Sempre a minha cara.
A Dama do Lago sorriu. Levantei os olhos para ela, pedindo uma explicação.
– Nunca tinha acontecido. Mas fico feliz: confirma-se que és especial...— disse ela.
– Mas o que é que isto quer dizer?
– Quer dizer que podes ser o que quiseres. Tu é que vais decidir o que queres ser.
Nessa altura, algo muito estranho se passou: deu-me uma vontade imensa de chorar e as lágrimas começaram a rolar pela minha cara. Chorei muito, mas com imenso prazer.
As lágrimas que caíram juntaram-se no chão formando uma pequena poça.
Dos olhos infinitamente tristes da Dama do Lago também escorreu uma lágrima – uma única lágrima – que se diria feita de prata e que se juntou às minhas. E aconteceu uma coisa mágica: no instante em que os dois líquidos se fundiram, uma árvore nasceu naquele sítio. Primeiro, uma folha; depois, um pequeno tronco. Um tronco que foi engrossando à nossa vista até se fazer numa bela árvore folhada, que floriu e que deu lindos frutos maduros. A Fada colheu o mais perfeito, trincou-o e estendeu-mo. Eu comi-o com imenso prazer.
– Não precisas de saber já o que queres ser. Tens tempo para decidir. Vais ter com a Rainha e dizes-lhe qual foi a tua decisão. Ela conceder-te-á esse desejo, respeitando o que tiveres escolhido. Nesse instante tornar-te-ás no objecto da tua escolha. Escolhe com sabedoria. O palácio da Rainha fica do outro lado das montanhas e vai levar-te dois dias de caminhada até lá chegares. O fruto que comeste não te deixará sentir fome e as roupas que trazes não te deixarão sentir frio. Certamente que na viagem irás viver bons momentos e conhecer muita gente interessante. Quem sabe se não farás bons amigos?...
Queria ter ficado ali para sempre mas percebi que era a hora da despedida.
Entrei para a canoa e deixei-me levar suavemente sobre as águas do Lago em direcção às montanhas. Voltei-me para trás, para acenar à Dama do Lago que ia ficando mais pequena. Ouvi a sua voz na minha cabeça: “Jamais me irei esquecer de ti!”. Também eu jamais me esqueceria dela e ela sabia-o.
IV
Imagino que tenham curiosidade em saber o que me aconteceu nos dois dias e duas noites que demorei a atravessar as montanhas.
De facto, a viagem tinha reservado para mim muitas surpresas e acabei por conhecer o Lobo, a Bruxa e muita outra gente interessante. Mas, mais importante que tudo isso, foi mesmo o que passei a conhecer sobre mim próprio.
Escusado será dizer que, durante todo o tempo, pensei na importante decisão que ia ter de tomar e tive imensas dúvidas. Era como se um génio me concedesse um desejo e eu não soubesse o que escolher...
De qualquer forma, o relato desses dois dias de viagem seria longo e, como não quero aborrecer ninguém, vou deixá-lo para melhor altura. Mas não vos queria deixar ir embora sem que ficassem a conhecer os pormenores da minha entrevista com a Rainha...
Depois de atravessar as montanhas avistei ao longe o palácio.
Via-se bem porque estava num ponto alto e era uma construção magnífica com imponentes torreões e uma muralha, que o separava da animada vila que o rodeava. À medida que me fui aproximando, fui-me apercebendo do ambiente de festa: bandeiras vibravam ao vento e ouviam-se clarins e tambores. Festejavam a minha chegada!
Assim que me viram, enviaram ao meu encontro uma delegação de boa-vindas. Eram os meus já conhecidos cavaleiros, chefiados por Lorde Capacete e, juntos, desfilámos pelas ruas por entre os ensurdecedores gritos de alegria da multidão.
Quando chegámos ao palácio, a ponte-levadiça desceu, uma grossa grade de ferro subiu e uma imensa porta de madeira abriu-se. Só então pudemos entrar.
Depois de atravessarmos salões elegantes e corredores infinitos, chegámos à sala onde a corte estava reunida para me receber. Entre os convidados estavam todos os amigos que fui fazendo durante a viagem (incluindo o Gnomo, o Duende, a Raposa e até o Gigante que, não cabendo na sala, espreitava por uma janela). Ao fundo, sentada num trono, estava a Rainha.
Não conheço as etiquetas complicadas destas cerimónias, pelo que me aproximei devagar e parei a uma distância respeitosa. A Rainha cumprimentou-me com simpatia e, depois de algumas perguntas de circunstância, foi directa ao assunto:
– Já decidiste o que queres ser?
Ouviu-se um murmúrio de expectativa na corte e os olhos da Rainha brilhavam de curiosidade. Respirei fundo para arranjar coragem e respondi:
– Já decidi, Majestade, mas não quero ser herói.
Houve uma exclamação de surpresa geral...
– Como assim? O que queres tu ser? – perguntou ela quase zangada.
E, sem me deixar responder, continuou:
– Tu sabes quanto precisamos de um herói: a Terra Fantástica sem aventuras deixa de fazer sentido!
Foi nessa altura, que fiz o meu discurso. Ainda me recordo das palavras exactas:
– Eu penso que estão todos enganados sobre este assunto: desde o primeiro segundo em que aqui cheguei não parei de ter aventuras! Conheci seres formidáveis, tive sustos e alegrias, atravessei florestas, lagos e montanhas. Na verdade, todas as viagens são uma imensa aventura: percebê-lo depende apenas dos nossos olhos e da nossa vontade. Ninguém pode ser herói por decreto real. O destino desta Terra Fantástica não passa por aquilo que eu possa ser, mas sim por aquilo que todos vocês são. Apenas precisam de aprender – outra vez – a maravilharem-se, como as crianças que pela primeira vez ouvem falar de Gnomos e de Gigantes, de Elfos e Bruxas. Por tudo isto, Majestade, o que eu quero mesmo é continuar a ser o João da Trofa.
Quando acabei, houve um momento de silêncio a que se seguiu uma enorme ovação que pareceu que ia durar para sempre e que só terminou quando a Rainha fez tenção de falar:
– De facto, falas com sabedoria e não imagino que um herói usasse outras palavras! Parece mesmo que te devemos uma preciosa lição... Sê, então, o João que queres ser e regressa à tua casa. Mas só depois de prometeres que vais voltar muitas vezes!
– Prometo! – exclamei, sincero.
Quando conto aos amigos que estas palavras são a minha última recordação daquela visita à Terra Fantástica e que, quando abri os olhos, estava no meu velho sofá, muitos dizem que sonhei. Eu sei que não.
Aos cépticos, a quem as fantasias pouco dizem e àqueles que, sendo crentes, ainda não encontraram a sua passagem para a Terra Fantástica, só tenho a dizer que tenham paciência: não há de tardar até que me acompanhem em aventuras. Àqueles que são familiares às maravilhas de que falei, só tenho de piscar um olho e despedir-me.
Sonhos? Talvez... Nem é para outra coisa que os livros servem!
FIM